Dia da Marmota

O tempo passava e eu me sentia no Dia da Marmota. Parecia que estava presa em uma etapa que não acabava nunca. Fiquei toda empolgada com o curso e pouco tempo depois a entrevista com a Assistente, mas daí a coisa parece ter travado como no Feitiço do Tempo. O telefone não tocava mais…. Cade a entrevista com a psicóloga?

Não queria ligar no Fórum e parecer a mulher-desesperada-que-precisa-loucamente-ter-um-filho, mas aquela espera estava começando a me dar nos nervos. Já esperavamos havia mais de dois meses.

Nesse momento nada de bom passa pela cabeça, principalmente das mulheres, que tem uma liiiiinda imaginação fértil. Entre os milhares de devaneios que tive se destacam: perderam meus documentos (esse é meu predileto, acho que pensei isso umas 15 vezes durante todo o processo), falamos alguma coisa pra Assistente que pegou muito mal e nunca mais vão nos ligar, estão nos testando pra ver se resistimos, estão deixando passar um tempo pra perguntar tudo novamente pra ver se as informações batem (como fazem naqueles filmes policiais), as psicólogas estão em greve e por aí vai.

No acesso a internet apareciam vários registros com: processo enviado para Assistente, laudo da Assistente entregue, enviado para mesa, enviado para o cartório, enviado para psicologia, recebido da psicologia. Eu pensava: Jesus, porque raios peguei essa senha de internet, não entendo patavinas do que isso significa e tá me dando nos nervos!!!!!

Ok, parei de me preocupar em parecer louca e liguei no Fórum. Azar parecer louca, eu tava ficando mesmo. Ou ligava ou continuava a devorar toda a comida que via pela frente. Dai meu filho teria uma mãe obesa quando chegasse.

Me atenderam no cartório, pediram o número do processo e me deram a mesma informação que estava na internet. LEGAL! Informei que essa informação eu já tinha. Então educadamente o funcionário do Fórum disse: a senhora precisa ter um pouco de paciência. Eu comecei a gritar e dizer que isso não fazia sentido. Mentira, eu só fiz isso por dentro. Eu apenas agradeci e desliguei.

Mas, como toda pré-mãe-neorótica dei umas 3 horas de prazo e liguei novamente alterando  a voz (sim, eu fiz isso). O mesmo cara me atendeu pediu o número do processo, consultou e disse: senhora, nas últimas 3 horas nada mudou no seu processo. Não me alterei, agradeci e desliguei. Na sequencia comi um pote de sorvete.

Coincidência ou não, dois dias após a ligação-mico, totalizando 3 meses de espera, ligaram da área de psicologia agendando nossa entrevista.

Pelo caminho

Nessa estrada vc acaba lendo muita coisa, conhecendo muita gente.

Sobre as leituras, falando aqui de internet, sugiro cautela. No início quis ler tudo. Mas aos poucos fui me frustrando, principalmente com os fóruns de discussão. Em sua grande maioria parece uma mistura de Fala Que Eu Te Escuto com Programa da Márcia. Muita gente falando de Deus-Deus-Deus e todas as dificuldades, demoras e injustiças que estão sofrendo em seus processos. Sabe quando vc recebe o resultado de um exame e entra no google pra tentar se autodiagnosticar e sempre acha que está com cancer terminal? É bem a mesma sensação.

Tem quem faça a diferença, mas para encontrar é necessário um certo garimpo. As leituras indicadas pelo Fórum e os sites dos programas de assistência, também indicados pelo Fórum, ainda são o melhor caminho.

Se vc quiser saber do processo de forma ampla e conhecer a experiência de outras pessoas, tem um site que eu indico de coração: www.guiadeadocaosp.com.br

Com a coisa toda caminhando, resolvemos contar para alguns amigos mais próximos a novidade. Até pra ter alguém pra ajudar a controlar a ansiedade. E, por esse caminho, eu não poderia deixar de citar pessoas que foram presenças especiais.

Flavia e Ricardo – Eu e meu marido conhecemos o casal por termos amigos em comum. Em um aniversário nos encontramos e num papo informal veio a pergunta: e ai, pensam em ter filhos? Nós dissemos que sim, desejávamos ter um filho biológico e um de coração. A Flávia, sempre muito direta e franca, disse: não sei se já contamos pra vcs, mas nossa filha é adotada. Acho que não rolou de disfarçar a cara de espanto. Nós não sabíamos. A partir dai a Flávia e o Ricardo foram amigos muito gentis. Nos contaram seu processo, que foi um tanto diferente do nosso, e nos orientaram em muitas coisas. O ombro sempre prestimoso desses queridos amigos foi muito importante tanto para entendermos o processo como para ajudar a aliviar a pressão. A Gigi é uma menina de sorte por ter pais tão gentis e prestimosos como vcs. Obrigada por tudo!

Mateus  –  Eu acredito que pra mulheres sempre rola uma certa ansiedade no momento de contar pro chefe que está grávida. Quando é um filho de coração, que vc não sabe quando vai se ausentar do trabalho, é mais complicado ainda. O Mateus chegou na empresa em abril, eu acho. Um certo tempo dps, eu chamei ele pra uma conversa. Disse: Tenho uma novidade: tô grávida! Mas não vai dar pra ver, porque é de coração. Eu e meu marido estamos no processo de adoção e em algum momento teremos um filho. Não sei quais são suas pretensões para mim aqui na empresa, mas acho importante que vc saiba disso. Ele foi incrível! Ficou emocionado, deu os parabéns, quase chorou. Não sabia o que fazer. Ficou genuinamente feliz. E eu ali, sem saber como reagir. Ele foi assim o processo todo. Nunca perguntava, mas sempre que eu tocava no assunto ele queria saber tudo. Sempre me apoiando nas faltas necessárias para ir ao Fórum. Dois meses depois eu fui promovida. Quando a Tamires chegou, eu não precisei falar nada, quando fui contar ele disse: chegou, não foi? Deveria estar com uma cara imbecilmente feliz e dai ele deduziu. No dia seguinte chegou com uma sacola enorme de roupas. Das filhas, que não serviam mais. Disse se queria umas roupas herdadas. Eu disse que são minhas preferidas, porque já vem carregadas de carinho. Obrigada Mateus!

Andre – Fizemos o curso no mesmo dia que o Andre. Ele estava sentado bem perto da gente e em um momento levantou a mão pra falar. Sua voz grossa encheu a sala e ele disse que estava fazendo o curso pela segunda vez. Pensei comigo: gente, será que ele foi reprovado e está fazendo tudo novamente? Então ele disse que na primeira vez estava apenas acompanhando seu marido, já que na época não era permitido adoção homoafetiva. Agora ele estava fazendo todo o processo para ter seu nome na certidão de nascimento dos dois filhos, que já estavam com eles. Um casal de irmãos. Tudo que o Andre disse foi bacana, mas uma coisa em especial foi mágica. Ele disse que logo que as crianças chegaram elas chamavam papai e os dois olhavam. A criança começou a ficar um pouco confusa e eles bastante preocupados. Como lidar com aquela situação? Que tipo de problema isso poderia causar na criança? começaram a buscar um psicólogo. Porém um dia o menino, que é um pouquinho maior, começou a chama-lo de papia. Um era o papai e o outro era papia. Ele próprio, no alto da sabedoria de sua cabecinha infantil, resolveu seu problema. Sem dor, sem caos. Andre, você é um grande exemplo!

Vó Totonha – Contar pra minha avó estava me angustiando. Apesar de amorosa, ela sempre foi muito sincera, meio dura até. Pessoas mais velhas tem outros tipos de valores. Construídos em outra época. Ela acredita muito no “poder do sangue”. Dizia: se tomar uma transfusão vinda de um ladrão, vc pode se tornar ladrão, tá no sangue. Quem sou eu pra tentar mudar como pensa uma senhora de quase 80 anos? Mas ok, me enchi de coragem e contei pra ela. Muito séria ela disse que isso era perigoso. Que não saberíamos de onde a criança vinha. Se fosse filho de ladrão, de maconheiro ou até coisa pior, como poderíamos lidar com isso? Eu disse: vó, as pessoas não são necessariamente fruto do meio em que vivem. Veja só, a senhora criou todos os seus 10 filhos do mesmo jeito, porém cada um tomou um rumo. Poucos são tão religiosos como a senhora, tem filho que usa drogas, tem filhos que tem problema com bebida, tem filhos que deram certos e outros nem tanto. Por mais que a senhora tenha se esforçado, as pessoas tem livre arbítrio e vão se tornar exatamente aquilo que escolherem. Vou me esforçar tanto quanto a senhora para cuidar do meu filho e vou pedir a Deus que o abençoe todos os dias, assim como a senhora faz comigo. Ela me abraçou e disse: vc é muito melhor que eu, minha filha. Vai criar seu filho muito bem. Espero que essa criança seja merecedora do seu amor. Dai me abraçou muito emocionada e disse que iria abençoa-lo quando chegasse. Obrigada Vó, por respeitar meu desejo, mesmo isso sendo tão diferente pra senhora.

É claro que a lista merece citar outras pessoas que foram importantes cada uma de sua maneira. Nossas famílias diretas, os amigos mais próximos. Todas foram essenciais na hora de ajudar a segurar a ansiedade, na hora de colocar pilha, na hora de ajudar a sonhar como seria. Mães, pais, irmãos, irmãs, Breno, Marcela, Godoy, Fiuza, Mariana, Fê, Léo, Rafa, Martim, Vanessa, Bressanes. Agradecemos a todos, citados e não citados (por questões de espaço). Vocês conhecem nossa história de trás pra frente. Vocês gestaram com a gente.

 

 

Assistente Social

Nossa entrevista com a Assistente Social foi agendada para dia 20 de maio as 15h. Chegamos bem próximos ao horário agendado e fomos atendidos poucos minutos depois. A mesma assistente que nos atendeu na primeira visita foi a mesma que esteve na nossa casa.

Dessa vez ela parecia bem relaxada, talvez por ver que ainda estávamos ali e isso deveria ser uma coisa boa. Ela começou perguntando o que achamos do curso. Dissemos que foi bastante esclarecedor. Então ela pegou nosso processo e deu uma olhada na ficha que preenchemos. Perguntou se queríamos reler e mudar alguma coisa. Dissemos que não, nossas escolhas continuavam as mesmas.

Nesse momento ela disse que o objetivo dessa entrevista era conhecer melhor quem somos e de onde viemos. Isso era importante para saber que tipo de familia tínhamos para oferecer. Então perguntou qual era nossa motivação para adotar um filho. Dissemos que era por desejo de termos uma criança em casa. Que queríamos ter nossa família. Então ela questionou porque não um biológico. Então dissemos que esse era também nosso desejo. Mas que queríamos também adotar. Ela perguntou se já havíamos tentando o biológico, por quanto tempo, se já havíamos feito tratamento para engravidar. Diante de várias negativas, ela pareceu se dá por convencida que era um desejo genuíno e não uma segunda opção.

Nesse momento ela fez uma importante afirmação. É preciso que vcs tenham em mente que não devem ter outro filho em um espaço inferior a um ano. Caso vc fique grávida durante o processo de adoção, disse olhando fixamente nos meus olhos, o processo de vcs ficará suspenso. Isso não quer dizer que vcs não poderão adotar, mas precisarão esperar até que o filho biológico tenha pelo menos um ano para voltar ao processo. Isso acontece porque a criança que irá viver com vcs vai demorar um tempo para entender que a família é dela, que aquele é um universo que a pertence. Se ela chegar e logo em sequência a mãe der o peito para outra criança isso pode ser muito doloroso para o filho adotivo. Ele pode achar que o outro é mais importante que ele e abalar profundamente o emocional da criança. Essa situação é muito séria e é importante que estejam cientes disso, disse em tom muito sério.

A partir desse momento começou uma série quase interminável de perguntas. Algumas vezes consultava nossa ficha pra relembrar algum dado sobre nossa casa, nossa renda ou alguma outra informação e depois voltava com mais perguntas. Havia um computador na mesa, mas estava desligado. Ela anotava tudo que falávamos em um caderno, desses de escola. Anotava com uma agilidade absurda, como quem faz aquilo ha muito tempo e sabe exatamente o que precisa ser registrado e o que não é necessário.

Em um certo momento eu não contive a curiosidade e perguntei: desculpe, mas porque a senhora não usa o computador? Ela deu um sorriso e disse que anotava nossas informações e que depois, ao digitar no computador ela poderia colocar também as impressões dela fazendo assim um relatório mais completo. Eu disse eu era uma técnica interessante. Ela sorriu e disse: também não digito tão rápido quanto escrevo. Na sequência voltou para seu rosário de perguntas.

Escrevo a seguir as perguntas que consigo me lembrar. Foram mais de duas horas de entrevistas, não me lembro de todas. Tudo que foi perguntado para mim, também foi perguntado para o meu marido

– Porque você saiu da sua cidade natal para São Paulo?

– Há quanto tempo está aqui?

– Qual o nome da sua mãe? Quantos anos ela tem? O que ela faz? Como é sua sua relação com ela?

– Qual o nome do seu pai? Quantos anos ele tem? O que ele faz? Como é sua relação com ele?

– Como é a relação dos seus pais? Há quanto tempo estão juntos (no meu caso, separados)?

– Qual o nome dos seus irmãos? Quantos anos eles tem? O que eles fazem? São casados? Tem filhos? Qual o nome e quantos anos tem os filhos deles? Como é sua relação com eles?

– Como é sua relação com tios e primos?

– Ainda tem avós? Qual o nome deles? O que eles fazem? Como é sua relação com eles?

– Com que frequência vê sua família? Como é essa convivência?

– Como avalia a situação emocional e social da sua família?

– Tem caso de adoção na família? Relate como se deu e como é a convivência

– Com qual idade começou a trabalhar? Conte seu histórico profissional

– Como é sua relação com seu chefe?

– Como é sua relação com seus colegas de trabalho?

– Você gosta do que faz?

– Como é sua relação com seus amigos? Fale um pouco dos seus três principais amigos

– Quantos relacionamentos amorosos você teve que julgam sérios? Como é sua relação com essas pessoas hoje?

– Há quanto tempo está casada? Como conheceu seu marido?

– Como avalia a relação de vocês?

– Como é sua relação com dinheiro?

– Qual seu principal passatempo? O que gosta de fazer nos finais de semana?

Ufa! Essas são as perguntas que me lembro.

Fomos o mais sinceros possível. Se fosse pra dar certo, deveria começar com a verdade. Isso inclui contar que era o segundo casamento de ambos, que meus pais são separados e por ai vai…

Ela anoto tudo, tudo, tudo. Acabava uma folha e virava para outra. Em alguns momentos consultava suas próprias anotações e voltava com uma nova pergunta.

No final narrou os próximos passos. Disse que faria um laudo a partir daquelas informações que seria anexado ao processo. O próximo contato seria feito pela área de psicologia para agendar a entrevista com eles.

Claro que perguntamos por prazo, mas ela foi categórica. Disse que não falam sobre prazo no Fórum, mas que podia me adiantar que a Dra. Dora fazia o possível para agilizar o processo.

Se despediu nos desejando boa sorte!

Celular

Eu nunca fui muito apegada ao telefone. Sou muito digital. Todo mundo fala comigo por uma das mil vias online em que estou presente. Email, facebook, twitter, comunicadores etc. Trabalho com isso. Estou pra lá de acostumada a passar grande parte do meu dia na frente da tela do computador.

Nem costumo atender telefonemas sem saber a procedência do número. Não sei quem é ou é bloqueado, dificilmente atendo. Sou do tipo que esquece no silencioso ou no fundo da bolsa e o bichinho toca desesperado sem receber atenção.

Meu marido que o diga…

Uso o telefone pra fazer tudo, menos ligar pra alguem. Só pra mamãe, que insiste em ser offline pra meu grande desgosto.

Porem o Fórum só entra em contato por telefone. Adivinhem?

Passei a ter uma estranha relação com esse aparelho. Algo que talvez somente os cientistas britânicos possam explicar, mas ele passou a ser uma extensão do meu corpo. Bateria sempre cheia, volume sempre alto. Ele sempre ali, ao meu lado. Nunca foi tratado com tanta atenção.

Atendi milhares de ligações indesejadas. Telemarketing, aquele colega chato que tem seu número mas vc não tem o dele, mil enganos. Tudo esperando o Fórum ligar e nada.

Um dia estava em uma importante reunião, em um grande cliente, apresentando um projeto. Meu chefe na sala, a diretoria em volta da mesa para conhecer a solução que bolamos. Não deu 5 minutos que estava falando o telefone tocou. Estava no silencioso, mas tremeu, acendeu a luz e mostrou um número desconhecido. Fingi não me importar, mas nem prestava mais atenção no que estava falando. O telefone parou de tocar. Um minuto depois começou a tocar novamente. O mesmo número. Comecei a suar. Sabia que se fosse o Fórum e eu não atendesse provavelmente eles ligariam para meu marido na sequência. Mas cade a lógica nessa hora? Então tomei coragem e pedi um minuto. Pedi desculpas e disse que tinha uma questão de família muito séria e precisava atender. Pessoal ficou meio assustado, mas já me conheciam e pareceu tudo bem. Meu chefe, como já sabia de tudo, fez uma cara de “ok, atende ai que tá tudo bem”. Corro pra fora da sala toda esbaforida e atendo a terceira tentativa de contato do número estranho. Era de uma loja onde havia feito uma compra e eles gostariam de confirmar a entrega. Fui na lua e voltei. Tive vontade de mandar o atendente para todos os lugares escuros e sombrios que conheço. Mas apenas confirmei e voltei pra reunião.

Essa mesma reunião foi longa toda vida. Na segunda etapa, um workshop, eu, não sei porque, não conseguia me concentrar. Então peguei o celular e joguei, vi tudo que tava acontecendo em todos os portais de notícias, redes sociais e afins. Fiquei ali até a bateria acabar. A reunião acabou também e voltamos pra agência.

Ao chegar recebi um recado que meu marido estava tentando falar comigo e não conseguia. Liguei pra ele e adivinhem? O Fórum havia ligado. Não conseguiram falar comigo e então ligaram pra ele pra marcar a entrevista com a Assistente Social.

Valeu Murphy!

 

Uma visita esperada

Em maio, não me lembro bem o dia, recebi uma ligação da Assistente Social. Era a mesma que havia nos recebido em nossa primeira ida ao Fórum. Ela gostaria de agendar uma visita em nossa residência. Informou que era necessário somente uma pessoa na casa. Se estivéssemos trabalhando, poderia ser uma empregada ou qualquer outra pessoa para recebe-la.

Eu, toda prosa que sou, perguntei se haveria tempo pra um cafezinho. Ela respondeu sem gracejo na voz que era uma visita técnica e que ela tinha muitas agendadas para aquele dia, a viatura estaria esperando por ela então recusou a gentileza.

No dia e horario marcados meu marido a recebeu. Eu estava no trabalho. Ele me ligou cerca de 15 minutos após o horário marcado e antes que ele pudesse falar eu disse: ela está atrasada ne? Então ele disse que ela já havia ido embora.

Chegou com uma prancheta na mão e pediu que lhe fossem apresentados todos os cômodos da casa. Fez perguntas óbvias sobre cada um deles. Do tipo: esse é quarto do casal?

Observou que já haviam telas em todas as janelas e meu marido disse que sempre foi assim porque temos dois gatos. Ela sorriu ao ver os bichinhos e perguntou: eles são adotados? Meu marido sorriu e disse que sim.

Após anotar varias coisas em sua prancheta agradeceu e foi embora.

Ao contrário do que você pensa

O Brasil tem quase 5 mil crianças e adolescentes à espera de uma família e cerca de 27.500 interessados em adotar. Ao contrario do que você pensa o número de interessados é quase 5 vezes maior que o de crianças disponíveis. Então porque os abrigos estão lotados?

Primeiro é o fato de muitas crianças que residem nesses abrigos não estarem disponíveis para adoção. No ECA está registrado que é  necessário que sejam esgotados os meios de promoção social, de orientação, de acompanhamento ou de tratamento dos pais, sob pena de a colocação em família substituta vir a implicar em violação ao direito fundamental de ser a criança ou adolescente criado e educado no seio da sua família.

Isso quer dizer que todos os esforços são feitos para reintegrar pais e filhos. Se não com os pais, com os avós, com tios, primos e qualquer outra pessoa com quem a criança tenha laços sanguíneos. É um processo muitas vezes demorado. Por vezes a criança é reintegrada mas depois volta novamente para o abrigo. Somente a recusa categórica de todos os membros consultados faz com que a criança seja destituída de sua família. Em caso de pais ou qualquer outro parente dados como desconhecidos ou desaparecidos, existe todo um esforço em localiza-los. Somente com as possibilidades esgotadas, a criança é colocada para adoção. Isso leva tempo. Um tempo que não é possível se precisar porque cada caso tem uma peculiaridade.

Muitas pretendentes pensam: eu aqui cheio de amor da pra dar e esse povo insistindo com esses pais terríveis e irresponsáveis. Porém, a questão é mais profunda. Relembrando as palavras da Juíza Dora, esses pais também são vitimas de uma sociedade desigual e injusta. Eles também precisam ser tratados. Muitas vezes os esforços de reintegração dão certo, outras vezes não.

Claro que é de partir o coração qualquer notícia sobre maus tratos a crianças. Aquelas então que são jogas no lixo, sujeitas a própria sorte é horrível. Quando vc está no processo para adoção doí mais ainda. Vc pensa: dá pra mim. faz isso não. Mas, não sabemos nada sobre a situação emocional e psíquica das pessoas envolvidas. A máxima válida para essa situação é antiga: não julgue para não ser julgado.

De qualquer forma, cerca de 80% das crianças  que estão em abrigos aguardam uma decisão judicial. Acredito que é nisso que nosso sistema mais peca. Esse processo deveria ser mais ágil.

O segundo fator que faz com que alguns interessados em adotar fiquem tanto tempo na fila é o perfil desejado da criança. Dos 28 mil candidatos a pais incluídos no Cadastro Nacional de Adoção (CNA), 35,2% aceitam apenas crianças brancas e 58,7% buscam alguma com até três anos. Enquanto isso, nas instituições de acolhimento, mais de 75% dos cinco mil abrigados têm entre 10 e 17 anos, faixa etária que apenas 1,31% dos candidatos estão dispostos a aceitar.

Existe ainda uma questão muito particular. A estrutura do Fórum. Nos fomos atendidos na Sé, no maior fórum da America Latina. As cidades menores e mais pobres tem uma estrutura de atendimento infinitamente menor. A Vara da Infância e Juventude não cuida somente de adoções, cuida de diversos assuntos relacionados a crianças (da uma olhada aqui – o áudio tá horrível, mas é bem interessante). Além disso, em alguns casos cuidam também de assuntos relacionados a idosos. E tem bastante trabalho. O que acaba também colaborando em retardar o processo.

Em todo caso, você já deve ter ouvido histórias de pessoas dizendo que estão na fila há 4, 5 anos ou até mais tempo. Que é tudo maçante e demorado demais. Sugiro que pergunte qual o perfil desejado. A chance da pessoa responder menina, branca de até um ano é enorme. Nesse momento sugiro que dê um sorriso sarcástico e diga: assim fica difícil né?

Enfim, é por isso que as contas não fecham.

Pede pra sair…

Quem já assistiu o filme Tropa de Elite, gostando ou não, acaba vendo o Capitão Nascimento como símbolo de autoridade, força e competência. Te passa medo e ao mesmo tempo inspira. Eu tive o prazer de conhecer o que eu carinhosamente apelidei de Capitão Nascimento da Vara da Infância e Juventude: meritíssima Dra. Dora Aparecida Martins de Morais.

Uma das etapas do processo é participar do Curso de Preparação para Adoção que é gratuito e oferecido pelo Fórum onde seu processo foi aberto. Eles nos ligaram para informar que uma turma estava se formando e nos convidando a participar. No dia 18/04/2012 fomos ao auditório do fórum assistir o curso.

Confesso que não estava nem um pouco animada. Enxerguei aquilo como uma mera formalidade. Pensei que ficaríamos algumas horas longas e tediosas escutando alguém falar em uma linguagem rebuscada para meus ouvidos de publicitária. Como é bom estar enganado as vezes.

A surpresa inicial foi ver um enorme número de pessoas presentes no auditório. Eram umas 60 pessoas. Haviam casais héteros, casais homoafetivos, homens sozinhos, mulheres sozinhas e até uma mulher grávida.

Em alguns instantes um slide de power point foi projetado em um telão e as luzes foram semi apagadas. Entra em cena a Dra. Dora. Ensaia falar no microfone, mas sua voz forte e segura enche o auditório e logo ela percebe que não precisa dele.

O primeiro encontro com a Assistente Social vira teaser quando o curso começa pra valer. Ele é dividido em duas etapas no mesmo dia. Sabiamente na primeira etapa a Dra. Dora fala tantas coisas duras, dolorosas e difíceis que algumas pessoas não voltam pra segunda parte. O filtro continua ligado…..

Ela começa dando os parabéns aos presentes. Sempre chama todos de Senhores. Diz que é uma honra nos conhecer e saber que temos interesse em iniciar ou ampliar nossas famílias. Mas alerta que não é um processo fácil. Ela conta que eles são rigorosos no processo de preparação e avaliação e mesmo assim, ao menos uma criança por mês é devolvida no fórum.

Nesse momento todos se remexem em seus assentos. Na mente de todos eu acredito que passa a pergunta: como assim devolvida?

Então ela diz: senhores, o meu trabalho aqui é lidar com vidas e olha que me considero experiente nesse assunto. Em tantos anos de magistrado eu já vi um pouco de tudo. Mesmo assim, mesmo com tantos cuidados, as vezes eu me engano com os senhores. Eu penso que os senhores estão prontos, estão preparados. Os senhores me convenceram disso. Então eu pego uma das minhas crianças, e entrego para os senhores. Passa um mês os senhores voltam e me dizem coisas como: mas ela chora muito e eu não consigo mais dormir, ou eu e minha esposa passamos a brigar muito com a chegada dessa criança, ou acho que o cabelo dela está começando a ficar muito crespo, ou o nariz dela está ficando cada dia mais largo, ou ainda ela é ativa demais e faz muita bagunça. Então os senhores devolvem a criança.

Imagina como eu me sinto quando isso acontece? Eu falhei no meu julgamento. Eu olhei para os senhores e avaliei que eram capazes. Mas os senhores não eram. Agora eu tenho outra vez nas mãos uma criança que foi abandonada novamente.

Por isso tem uma coisa que precisa ficar clara desde o início. Eu estou em busca de famílias para minhas crianças e não procurando filhos para os senhores. Eu não me preocupo com os senhores, me preocupo com minhas crianças. Quero o melhor para elas. Os senhores aqui não são prioridades.

Mais uma coisa, os senhores só podem adotar uma criança no Brasil porque somos um país pobre, sem um programa eficiente de controle de natalidade. Somos um país repleto de famílias sem estrutura alguma. Quem somos nós para julgar uma pessoa criada sem valores sociais, sem senso crítico, sem alto estima que vem a ter um filho e não tem a mínima noção de como cuidar dele sendo que essa pessoa nunca foi cuidada?

O silêncio fica pesado no auditório e todos parecem dar graças a Deus pelas luzes estarem semi apagadas.

Então ela passa o ppt com uma música e uma mensagem bonita e várias crianças vão se revezando na tela. São crianças que vivem em abrigos. Estão sorrindo, chorando, brincando, cantando.

No final ela passa um vídeo curtinho, gravado no celular mesmo, são duas crianças de 8 e 9 anos. Eles são negros e sorridentes. Estão sentados em um sofá morrendo de vergonha da camera, mas respondem as perguntas feitas pela pessoa que filma. Dizem que são corinthianos, estudam, brigam muito mas adoram ficar juntos. São irmãos. Então dizem que gostariam de ser adotados porque querem ter um pai e uma mãe. Mas que querem ficar juntos. Dizem que querem continuar morando no Brasil, porque gostam daqui e podem acompanhar os jogos do Corinthians.

As luzes se acendem e a Dra. Dora fala de como eles estão há anos esperando por uma família. Ela diz que a situação dele é a mesma de muitas crianças presentes hoje nos abrigos. Então ela começa alguns casos…

Vcs sabiam que existe um código velado entre presidiárias gravidas? Se elas derem seus filhos para adoção provavelmente serão mortas por outras detentas. Então elas tem os filhos e eles ficam em abrigos.

Muitas mulheres chegam aos hospitais, dão a luz e fogem antes de terem alta. Elas poderiam dizer a enfermeira que querem a presença de uma Assistente Social e assinarem, ali mesmo, um termo para abrir mão da guarda. Elas ainda teriam 30 dias pra se arrependerem e voltar atras. Mas elas não fazem isso. Por outro lado, as enfermeiras também não costumam incentivar isso. Pelo contrário, algumas já sabem que a mulher vai sumir, as vezes nem é o primeiro parto dela. Então entram em contato com a amiga que disse que tem outra amiga que quer uma criança. Então elas dão essas crianças para outras pessoas. Sim, infelizmente isso ainda acontece.

Mas porque essas mulheres não abrem mão de seus filhos para que eles sejam rapidamente absorvidos por outras famílias sem precisar passar tanto tempo em abrigos? Porque somos latinos, somos passionais. Não abrimos mão. Elas não dão os filhos, mas se o Estado tirar delas, aí tudo bem. Elas não tiveram culpa, foi o Estado quem tirou.

A Dra. Dora então conta vários casos de crianças. Cito alguns:

– Uma menina de 5 anos linda, mas quando repreendida, fazia coco na sala e passava nas paredes. Ela foi devolvida 3 vezes. Ela foi criada pela mãe que sempre falava muito mal do pai e de outros homens. A mãe morreu e ela foi pro abrigo, mas não aceitava a figura masculina. Então a Dra. Dora se lembrou de um casal onde o homem era muito tranquilo. Chamou ambos e contou o caso. Informou que o homem teria que se anular. A menina fez o que pode para testar o casal. Mas então se rendeu ao amor deles e ha 10 anos eles são uma família.

– Um casal que não conseguia ter filhos adotou uma criança. 5 anos depois, a esposa ficou gravida. Eles queriam devolver o filho adotivo.

– Um casal tinha 3 filhos biológicos e resolveu adotar um. Todo o processo correu bem e eles receberam um bebe em casa. Porem, um mês depois a esposa sofreu um AVC e faleceu. O homem tinha agora 4 filhos pra criar sozinho, sendo um deles bebe. Então ele disse aos filhos que não poderia fazer aquilo sozinho, estava pensando em devolver o bebe. Mas que antes conversaria com cada um pra saber a opinião deles e não diria para um o que o outro decidiu. As três crianças votaram para o bebe ficar e se comprometeram a ajudar o pai.

– Um casal branco adotou duas crianças negras. Estavam brincando em um parque quando um senhor se aproximou e disse: quem são os pais dessas crianças? Então o casal respondeu: nós. O homem insistiu perguntando quem eram os pais de verdade. Eles disseram: nós. Então o homem disse: mas essas crianças são adotadas né? O casal disse: são nossos filhos. O senhor iria fazer outra pergunta, mas então um dos filhos disse ao senhor: você não tem pai nem mãe?

– A Dra. Dora recebeu uma carta de um pai aflito. Ele estava preso, cumprindo o primero ano de uma pena de 10 anos por assalto a mão armada. Na carta ele dizia que sua filha de 2 anos estava em um abrigo porque sua esposa havia falecido em um acidente e ninguém da família queria cuidar da menina. Ele pedia que a criança não fosse colocada para adoção poque ele a amava demais e cuidaria dela assim que saísse da prisão. Então a Dra. Dora ponderou, não coloco a menina para adoção, mas e se esse homem morre na prisão ou sai e continua um bandido? Mesmo que dê tudo certo, é justo privar essa criança da convivência familiar até ela fazer 12 anos? Mas não haviam dúvidas que ele era um pai amoroso e estava sofrendo muito com a possibilidade de não ver mais a filha. Ela não contou como o caso foi sanado.

Vários outros casos foram citados. Felizes e tristes. Mas então a Dra. Dora cita os meninos mostrados no vídeo passado logo no início. Ela diz que não esperava que eles fossem adotados. Já são bem grandes e são dois. A justiça faz de tudo para não separar irmãos. Também por isso as vezes a adoção demore mais ainda. Mas não vou mais contar o caso deles, vou trazer os novos pais deles aqui pra contar.

Todos olham com grande surpresa um casal com cerca de 40 anos, brancos e altos entrarem no auditorio com uma criança de cada lado. Eles são italianos e uma tradutora ajuda na comunicação com a platéia. O homem começa dizendo que eles estavam no Brasil ha quase 30 dias convivendo com as crianças, que essa é uma exigencia do nosso país. Só após a aproximação eles poderiam ir para Itália com os garotos e isso aconteceria já na próxima semana. Os meninos estão agarrados ao casal e se dirigem a eles como mãe e pai. Eles dizem que estão animados em morar na Itália que já sabem falar sorvete e casa em italiano e quando chegarem lá para escola para aprender mais. Dizem ainda que vão acompanhar o Corinthias pela internet. Então a mulher pega o microfone e diz que está muito feliz, nunca esteve tão feliz e que a sensação que ela tem é que eles sempre foram os filhos dela. Eles estavam apenas passando uma temporada aqui, como se fossem umas férias, eles vieram busca-los. Todos batem palmas emocionados com a história de final feliz. O casal deixa o auditório sorridente, como se pisasem em nuvens.

A Dra. Dora então diz que é uma pena as crianças estarem saindo do país. Que é sempre uma desonra para uma nação ver um filho ir embora por falta de estrutura, mas é ótimo saber que eles agora tem uma família.

Ela finaliza dizendo que fica muito feliz em fazer parte de uma etapa tão importante em nossas vidas e nos deseja sorte.

O curso acaba e eu e meu marido saímos com as baterias carregadas. Especialmente felizes em saber que existem pessoas tão compromissadas e corretas ocupando um lugar tão importante. Dei graças a Deus por estar sendo atendida naquele fórum. Eu espero sinceramente que existam muitas Dra. Dora espalhadas pelas Varas de Infância e Juventude desse país. Nossas crianças merecem!

Primeira fase do processo

Com todos os documentos preenchidos e entregues, ficamos no aguardo da abertura do processo. Ele foi registrado em 28/11/2011.

Ao questionarmos no cartório qual seria o próximo passo, fomos informados que iriam solicitar certidões civis e criminais nossas. Perguntamos porque nós mesmo não poderíamos requisitar esses documentos nos cartórios e levarmos junto com os demais. Fomos informados que o processo era assim antigamente, mas que algumas pessoas falsificaram certidões. Por isso, agora o próprio fórum requisita as certidões aos cartórios. É meu amigo, aquele ditado “os justos pagando pelos pecadores”.

Como eu sou de Belo Horizonte e o Agê é de Assis, esses processo foi ainda mais demorado. Foram quase 4 meses até que todas as certidões chegassem e fossem anexadas no processo. Isso aconteceu em 16/03/2012.

Paciência….

Para Ler, Ver e Participar

Abaixo a lista de livros, filmes e grupos de apoio que nos foi indicados pelo Fórum.

Livros para pais:

Adoção: Origem, Segredos e Revelações 

Os Caminhos do Coração: Pais e Filhos

Compreendendo o Filho Adotivo

Compreendendo Pais Adotivos

Filhos do Coração

Laços de Ternura

Irmão Negro

Abandono e Adoção

Livros para crianças:

Adoção: Uma História de Espera e Amor

Conta de Novo a História da Noite em que Nasci

Em Busca de Mim

Faltava Você

A História Bonitinha de Maria Estrelinha

A História de Ernesto: O Filho Adotivo

O Livro Mágico da Bruxinha Nicolau

– Mamãe, Por Que Eu Não Nasci da Sua Barriga: Maria Salete Domingos – Fundação Vida

Filmes:

Aluga-se um Garoto

O Destino de uma Vida

Os Anjos Entram em Campo

Segredos e Mentiras

Uma Nova Chance

Annie

A Malandrinha

Em Busca do Vale Encantado

Matilda

O Pestinha

Presente de Grego

Quase uma Família

Inimigo Meu

Stwart Little

Mogli

Nas Profundezas do Mar sem Fim

Juno

Um Sonho Possível

O contador de Histórias

Grupos de Apoio em São Paulo:

Associação Projeto Acolher

Projeto Acalanto

Grupo de Apoio a Adoção de São Paulo – GAASP