A primeira vez

Fomos ao Fórum João Mendes no dia 15 de setembro de 2011, por volta de 13hs. Apesar de ser o orgulho do magistrado paulistano, construído em estilo neoclassico inspirado no Palácio da Justiça de Roma, repleto de largos corredores e cercado de incontáveis portas, me pareceu mais triste e bucólico que imponente, cheio de montanhas de papeis empoeirados cobertos por plásticos velhos.

Após um pouco de dificuldade para localizar o local correto, chegamos à Vara da Infância e Juventude. Nos dirigimos à primeira porta aberta, era o cartório. Fomos encaminhados para uma Assistente Social que nos pediu alguns minutos e nos recebeu gentilmente.

Ao informarmos sobre a intenção de nos candidatarmos a adoção, ela respirou fundo. Parecia buscar energia lá do fundo, como alguém que já fez aquele ritual centenas de vezes vendo muitos finais felizes e tristes.

Foi ela quem nos deu nosso primeiro tapa da cara. Como uma inspetora de colégio, que é obrigada a fazer o serviço chato de sempre chamar atenção, mas consciente da importância desse procedimento, ela iniciou seu rosário de verdades e alertas. Em momento algum nos perguntou nossa motivação (esse prato é servido mais tarde). Nesse momento inicial, nos preparou sabiamente para enfrentarmos o que estava por vir.

Nos entregou uma “Planilha para cadastramento de pretendentes a adoção”, uma lista de documentos necessários, uma lista de filmes e livros indicados, um panfleto de um grupo de acompanhamento de adotantes e uma cartilha do ministério publico com perguntas mais frequentes sobre adoção. Tudo em xerox meio torto, meio apagado. Em sua maioria datado de 2008.

A seguir narro de forma livre a conversa de cerca de uma hora que tivemos….

Após ler todo o material conosco e perguntar se tínhamos dúvidas, nos soltou a seguinte pergunta: vcs assistiram o filme Juno?  Nós, sorridentes, dissemos que sim. Então ela disse: essa não é a realidade da adoção no Brasil. Nenhuma mocinha branca, saudável e linda vai ficar grávida sem querer e resolver ter uma gravidez saudável para no final entregar seu filho pra adoção. No Brasil é possível adotar crianças abandonadas e aqui na nossa Vara recebemos todas as crianças da região da cracolândia, do centro baixo, dos hospitais da paulista. São crianças fruto de estupro, filhos das drogas e do álcool, da pobreza e da violência que hoje estão presentes na nossa sociedade.

Para dar um lar pra essas crianças vcs precisam se preparar. Precisamos saber se vcs estão aptos para cuidar definitivamente de quem já foi abandonado uma, duas e até mais vezes. De quem não sabe o que significa a palavra mãe ou pai e muito menos o que é lar.

Por isso, não pensem que vai ser fácil e rápido. É uma gestação como outra qualquer, onde vcs terão tempo para maturar a idéia, estudar sobre o assunto e se prepararem para se tornarem pais de verdade.

O primeiro desafio será preencher a Planilha que estou entregando para vocês. Aqui vcs terão que assinalar idade, sexo, cor. Cor, por exemplo, o que é ser pardo? 18:30hs é pardo? Mas 19hs já é negro? O que é branco num país totalmente miscigenado?

Acho que posso considerar vcs brancos. O senhor tem lindos olhos azuis, disse olhando para meu marido. Vcs podem querer adotar uma criança negra, mas estão preparados para ter que provar várias vezes que ele é realmente seu filho? Como pretendem reagir quando ele for vítima de preconceito, vão bater no ofensor na frente dele? Se sentem fortes o suficiente para aguentar o pesado e surpreso olhar das pessoas quando verem vcs na rua? E o fato de algum parente ou amigo próximo não aceitar isso bem?

Outro fator, vcs deveram sinalizar questões como: aceitam adotar uma criança com doença grave? leve? incurável? O que cada uma dessas classificações quer dizer? Asma por exemplo, é uma doença incurável, pode ser grave ou leve. Vcs deixariam de adotar uma criança porque ela tem uma alergia?

O que dizer então dos problemas psicológicos? Uma criança criada na coletividade de um abrigo, vivendo com outras 15, 20 crianças. Ela é irritadiça? grande novidade. Quem não seria?

Criança com sindrome de down ou outra situação que aspire cuidados especiais. Vcs vão poder prover isso financeiramente e emocionalmente?

Aceita adorar uma criança vítima de maus tratos, sim ou não? Se a resposta for não, vcs não devem continuar esse processo. Todas as crianças que temos aqui são vítimas de maus tratos. Elas foram abandonadas ou retiradas de suas famílias por motivos fortes. Isso já é um grande mau trato a que essa criança foi submetida.

Esse não é o momento de serem heróis. Reflitam sobre o que realmente são capazes de suportar e marquem as alternativas que espelham o filho que vcs tem condição de criar com amor e dedicação. Ele vai precisar disso.

Depois de tanto tapa na cara, vcs podem imaginar que o casal sorridente que entrou na sala, tinha agora outra expressão no rosto. Estávamos sérios e digerindo tudo aquilo que ela descarregava sobre nós.

Acho que nesse momento ela se deu por satisfeita. Então com um sorriso sereno finalizou. Essas são algumas reflexões que eu gostaria que vcs fizessem. Não pense que estou desestimulando vcs, meu trabalho aqui é fazer um filtro. Nosso tempo é curto e nosso trabalho é muito, não podemos perder tempo com pessoas que tem idéias romantizadas ou motivações incorretas.

Se despediu serena nos desejando boa sorte.

Fiquei com a incômoda impressão que ela pensou que não nos veria novamente.

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3 comentários sobre “A primeira vez

  1. Também passei por essa situação com meu marido. Participamos de um curso chamado “formação para pretendentes a pais adotivos” ou algo do genero..rsrsrsr. Isso não foi no Brasil, mas percebi que a pedagogia adotada é a mesma.Foram palavras rudes. Eram 15 casais pretendentes. Sai de lá e chorei quase um dia inteiro. Mas não desistimos. Começamos a refletir mais e mais. Hoje já temos total certeza que nosso filho chegará na hora certa.
    Estamos na fase de juntar milhares de documentos, porque aqui fazem exigencias um pouco diferentes do Brasil.
    Comento com minhas amigas que quando decidii ser mãe, ganhei uma armadura medieval (aquelas que protegem bastante, como vemos nos filmes).
    Minha luta é diaria contra a ansiedade e também sobre os rumos que o processo poderá ter. Mas a minha fé é maior.

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