Pede pra sair…

Quem já assistiu o filme Tropa de Elite, gostando ou não, acaba vendo o Capitão Nascimento como símbolo de autoridade, força e competência. Te passa medo e ao mesmo tempo inspira. Eu tive o prazer de conhecer o que eu carinhosamente apelidei de Capitão Nascimento da Vara da Infância e Juventude: meritíssima Dra. Dora Aparecida Martins de Morais.

Uma das etapas do processo é participar do Curso de Preparação para Adoção que é gratuito e oferecido pelo Fórum onde seu processo foi aberto. Eles nos ligaram para informar que uma turma estava se formando e nos convidando a participar. No dia 18/04/2012 fomos ao auditório do fórum assistir o curso.

Confesso que não estava nem um pouco animada. Enxerguei aquilo como uma mera formalidade. Pensei que ficaríamos algumas horas longas e tediosas escutando alguém falar em uma linguagem rebuscada para meus ouvidos de publicitária. Como é bom estar enganado as vezes.

A surpresa inicial foi ver um enorme número de pessoas presentes no auditório. Eram umas 60 pessoas. Haviam casais héteros, casais homoafetivos, homens sozinhos, mulheres sozinhas e até uma mulher grávida.

Em alguns instantes um slide de power point foi projetado em um telão e as luzes foram semi apagadas. Entra em cena a Dra. Dora. Ensaia falar no microfone, mas sua voz forte e segura enche o auditório e logo ela percebe que não precisa dele.

O primeiro encontro com a Assistente Social vira teaser quando o curso começa pra valer. Ele é dividido em duas etapas no mesmo dia. Sabiamente na primeira etapa a Dra. Dora fala tantas coisas duras, dolorosas e difíceis que algumas pessoas não voltam pra segunda parte. O filtro continua ligado…..

Ela começa dando os parabéns aos presentes. Sempre chama todos de Senhores. Diz que é uma honra nos conhecer e saber que temos interesse em iniciar ou ampliar nossas famílias. Mas alerta que não é um processo fácil. Ela conta que eles são rigorosos no processo de preparação e avaliação e mesmo assim, ao menos uma criança por mês é devolvida no fórum.

Nesse momento todos se remexem em seus assentos. Na mente de todos eu acredito que passa a pergunta: como assim devolvida?

Então ela diz: senhores, o meu trabalho aqui é lidar com vidas e olha que me considero experiente nesse assunto. Em tantos anos de magistrado eu já vi um pouco de tudo. Mesmo assim, mesmo com tantos cuidados, as vezes eu me engano com os senhores. Eu penso que os senhores estão prontos, estão preparados. Os senhores me convenceram disso. Então eu pego uma das minhas crianças, e entrego para os senhores. Passa um mês os senhores voltam e me dizem coisas como: mas ela chora muito e eu não consigo mais dormir, ou eu e minha esposa passamos a brigar muito com a chegada dessa criança, ou acho que o cabelo dela está começando a ficar muito crespo, ou o nariz dela está ficando cada dia mais largo, ou ainda ela é ativa demais e faz muita bagunça. Então os senhores devolvem a criança.

Imagina como eu me sinto quando isso acontece? Eu falhei no meu julgamento. Eu olhei para os senhores e avaliei que eram capazes. Mas os senhores não eram. Agora eu tenho outra vez nas mãos uma criança que foi abandonada novamente.

Por isso tem uma coisa que precisa ficar clara desde o início. Eu estou em busca de famílias para minhas crianças e não procurando filhos para os senhores. Eu não me preocupo com os senhores, me preocupo com minhas crianças. Quero o melhor para elas. Os senhores aqui não são prioridades.

Mais uma coisa, os senhores só podem adotar uma criança no Brasil porque somos um país pobre, sem um programa eficiente de controle de natalidade. Somos um país repleto de famílias sem estrutura alguma. Quem somos nós para julgar uma pessoa criada sem valores sociais, sem senso crítico, sem alto estima que vem a ter um filho e não tem a mínima noção de como cuidar dele sendo que essa pessoa nunca foi cuidada?

O silêncio fica pesado no auditório e todos parecem dar graças a Deus pelas luzes estarem semi apagadas.

Então ela passa o ppt com uma música e uma mensagem bonita e várias crianças vão se revezando na tela. São crianças que vivem em abrigos. Estão sorrindo, chorando, brincando, cantando.

No final ela passa um vídeo curtinho, gravado no celular mesmo, são duas crianças de 8 e 9 anos. Eles são negros e sorridentes. Estão sentados em um sofá morrendo de vergonha da camera, mas respondem as perguntas feitas pela pessoa que filma. Dizem que são corinthianos, estudam, brigam muito mas adoram ficar juntos. São irmãos. Então dizem que gostariam de ser adotados porque querem ter um pai e uma mãe. Mas que querem ficar juntos. Dizem que querem continuar morando no Brasil, porque gostam daqui e podem acompanhar os jogos do Corinthians.

As luzes se acendem e a Dra. Dora fala de como eles estão há anos esperando por uma família. Ela diz que a situação dele é a mesma de muitas crianças presentes hoje nos abrigos. Então ela começa alguns casos…

Vcs sabiam que existe um código velado entre presidiárias gravidas? Se elas derem seus filhos para adoção provavelmente serão mortas por outras detentas. Então elas tem os filhos e eles ficam em abrigos.

Muitas mulheres chegam aos hospitais, dão a luz e fogem antes de terem alta. Elas poderiam dizer a enfermeira que querem a presença de uma Assistente Social e assinarem, ali mesmo, um termo para abrir mão da guarda. Elas ainda teriam 30 dias pra se arrependerem e voltar atras. Mas elas não fazem isso. Por outro lado, as enfermeiras também não costumam incentivar isso. Pelo contrário, algumas já sabem que a mulher vai sumir, as vezes nem é o primeiro parto dela. Então entram em contato com a amiga que disse que tem outra amiga que quer uma criança. Então elas dão essas crianças para outras pessoas. Sim, infelizmente isso ainda acontece.

Mas porque essas mulheres não abrem mão de seus filhos para que eles sejam rapidamente absorvidos por outras famílias sem precisar passar tanto tempo em abrigos? Porque somos latinos, somos passionais. Não abrimos mão. Elas não dão os filhos, mas se o Estado tirar delas, aí tudo bem. Elas não tiveram culpa, foi o Estado quem tirou.

A Dra. Dora então conta vários casos de crianças. Cito alguns:

– Uma menina de 5 anos linda, mas quando repreendida, fazia coco na sala e passava nas paredes. Ela foi devolvida 3 vezes. Ela foi criada pela mãe que sempre falava muito mal do pai e de outros homens. A mãe morreu e ela foi pro abrigo, mas não aceitava a figura masculina. Então a Dra. Dora se lembrou de um casal onde o homem era muito tranquilo. Chamou ambos e contou o caso. Informou que o homem teria que se anular. A menina fez o que pode para testar o casal. Mas então se rendeu ao amor deles e ha 10 anos eles são uma família.

– Um casal que não conseguia ter filhos adotou uma criança. 5 anos depois, a esposa ficou gravida. Eles queriam devolver o filho adotivo.

– Um casal tinha 3 filhos biológicos e resolveu adotar um. Todo o processo correu bem e eles receberam um bebe em casa. Porem, um mês depois a esposa sofreu um AVC e faleceu. O homem tinha agora 4 filhos pra criar sozinho, sendo um deles bebe. Então ele disse aos filhos que não poderia fazer aquilo sozinho, estava pensando em devolver o bebe. Mas que antes conversaria com cada um pra saber a opinião deles e não diria para um o que o outro decidiu. As três crianças votaram para o bebe ficar e se comprometeram a ajudar o pai.

– Um casal branco adotou duas crianças negras. Estavam brincando em um parque quando um senhor se aproximou e disse: quem são os pais dessas crianças? Então o casal respondeu: nós. O homem insistiu perguntando quem eram os pais de verdade. Eles disseram: nós. Então o homem disse: mas essas crianças são adotadas né? O casal disse: são nossos filhos. O senhor iria fazer outra pergunta, mas então um dos filhos disse ao senhor: você não tem pai nem mãe?

– A Dra. Dora recebeu uma carta de um pai aflito. Ele estava preso, cumprindo o primero ano de uma pena de 10 anos por assalto a mão armada. Na carta ele dizia que sua filha de 2 anos estava em um abrigo porque sua esposa havia falecido em um acidente e ninguém da família queria cuidar da menina. Ele pedia que a criança não fosse colocada para adoção poque ele a amava demais e cuidaria dela assim que saísse da prisão. Então a Dra. Dora ponderou, não coloco a menina para adoção, mas e se esse homem morre na prisão ou sai e continua um bandido? Mesmo que dê tudo certo, é justo privar essa criança da convivência familiar até ela fazer 12 anos? Mas não haviam dúvidas que ele era um pai amoroso e estava sofrendo muito com a possibilidade de não ver mais a filha. Ela não contou como o caso foi sanado.

Vários outros casos foram citados. Felizes e tristes. Mas então a Dra. Dora cita os meninos mostrados no vídeo passado logo no início. Ela diz que não esperava que eles fossem adotados. Já são bem grandes e são dois. A justiça faz de tudo para não separar irmãos. Também por isso as vezes a adoção demore mais ainda. Mas não vou mais contar o caso deles, vou trazer os novos pais deles aqui pra contar.

Todos olham com grande surpresa um casal com cerca de 40 anos, brancos e altos entrarem no auditorio com uma criança de cada lado. Eles são italianos e uma tradutora ajuda na comunicação com a platéia. O homem começa dizendo que eles estavam no Brasil ha quase 30 dias convivendo com as crianças, que essa é uma exigencia do nosso país. Só após a aproximação eles poderiam ir para Itália com os garotos e isso aconteceria já na próxima semana. Os meninos estão agarrados ao casal e se dirigem a eles como mãe e pai. Eles dizem que estão animados em morar na Itália que já sabem falar sorvete e casa em italiano e quando chegarem lá para escola para aprender mais. Dizem ainda que vão acompanhar o Corinthias pela internet. Então a mulher pega o microfone e diz que está muito feliz, nunca esteve tão feliz e que a sensação que ela tem é que eles sempre foram os filhos dela. Eles estavam apenas passando uma temporada aqui, como se fossem umas férias, eles vieram busca-los. Todos batem palmas emocionados com a história de final feliz. O casal deixa o auditório sorridente, como se pisasem em nuvens.

A Dra. Dora então diz que é uma pena as crianças estarem saindo do país. Que é sempre uma desonra para uma nação ver um filho ir embora por falta de estrutura, mas é ótimo saber que eles agora tem uma família.

Ela finaliza dizendo que fica muito feliz em fazer parte de uma etapa tão importante em nossas vidas e nos deseja sorte.

O curso acaba e eu e meu marido saímos com as baterias carregadas. Especialmente felizes em saber que existem pessoas tão compromissadas e corretas ocupando um lugar tão importante. Dei graças a Deus por estar sendo atendida naquele fórum. Eu espero sinceramente que existam muitas Dra. Dora espalhadas pelas Varas de Infância e Juventude desse país. Nossas crianças merecem!

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7 comentários sobre “Pede pra sair…

  1. Cris, seus posts me fazem olhar e considerar ainda mais esse processo tão longo e imbricado de sentimentos, nem sempre fáceis. Ler tuas palavras humanizam com os tons certos de realidade e esperança um processo que por vezes é romantizado demais. Um salve pra Dra. Dora e outros para você. Beijo.

  2. Adorei o Texto ! Achei muito legal me lembrar desse dia ! Eu também fiz esse mesmo curso, nesse mesmo dia ! e na saida fiquei um tempinho papeando com a Alessandra Coutinho ( nossa amiga em comum do facebook ). Eu já havia feito o curso antes, mas tive de fazer mais uma vez, pois dessa ultima foi pra incluir meu nome no processo, já que eu e o Angelo demos entrada no processo somente no nome dele ! Parabéns pelo Blog !

    • Seu depoimento foi inspirador Andre. Por isso fiquei tão feliz em reencontra-lo, mesmo que no facebook. Em breve vou fazer um post sobre minha visão do que vc compartilhou conosco naquele dia. Grande bj

  3. Cris a minha Beatriz é uma das “sobrinhas da Dra. Dora”. Seu texto emocionou e me trouxe doces lembranças. No momento do seu curso eu estava dando entrada nos papéis e fiz o curso seguinte, muito semelhante, inclusive com as histórias do casal italiano atualizadas.
    Pais adotivos se reconhecem na rua e aqui no bairro já encontrei alguns outros sobrinhos dela, inclusive na escola aonde ela estuda. Ela é uma mulher de muita fibra e que merece essa sua homenagem, que faço questão de compartilhar com meus amigos

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