Pelo caminho

Nessa estrada vc acaba lendo muita coisa, conhecendo muita gente.

Sobre as leituras, falando aqui de internet, sugiro cautela. No início quis ler tudo. Mas aos poucos fui me frustrando, principalmente com os fóruns de discussão. Em sua grande maioria parece uma mistura de Fala Que Eu Te Escuto com Programa da Márcia. Muita gente falando de Deus-Deus-Deus e todas as dificuldades, demoras e injustiças que estão sofrendo em seus processos. Sabe quando vc recebe o resultado de um exame e entra no google pra tentar se autodiagnosticar e sempre acha que está com cancer terminal? É bem a mesma sensação.

Tem quem faça a diferença, mas para encontrar é necessário um certo garimpo. As leituras indicadas pelo Fórum e os sites dos programas de assistência, também indicados pelo Fórum, ainda são o melhor caminho.

Se vc quiser saber do processo de forma ampla e conhecer a experiência de outras pessoas, tem um site que eu indico de coração: www.guiadeadocaosp.com.br

Com a coisa toda caminhando, resolvemos contar para alguns amigos mais próximos a novidade. Até pra ter alguém pra ajudar a controlar a ansiedade. E, por esse caminho, eu não poderia deixar de citar pessoas que foram presenças especiais.

Flavia e Ricardo – Eu e meu marido conhecemos o casal por termos amigos em comum. Em um aniversário nos encontramos e num papo informal veio a pergunta: e ai, pensam em ter filhos? Nós dissemos que sim, desejávamos ter um filho biológico e um de coração. A Flávia, sempre muito direta e franca, disse: não sei se já contamos pra vcs, mas nossa filha é adotada. Acho que não rolou de disfarçar a cara de espanto. Nós não sabíamos. A partir dai a Flávia e o Ricardo foram amigos muito gentis. Nos contaram seu processo, que foi um tanto diferente do nosso, e nos orientaram em muitas coisas. O ombro sempre prestimoso desses queridos amigos foi muito importante tanto para entendermos o processo como para ajudar a aliviar a pressão. A Gigi é uma menina de sorte por ter pais tão gentis e prestimosos como vcs. Obrigada por tudo!

Mateus  –  Eu acredito que pra mulheres sempre rola uma certa ansiedade no momento de contar pro chefe que está grávida. Quando é um filho de coração, que vc não sabe quando vai se ausentar do trabalho, é mais complicado ainda. O Mateus chegou na empresa em abril, eu acho. Um certo tempo dps, eu chamei ele pra uma conversa. Disse: Tenho uma novidade: tô grávida! Mas não vai dar pra ver, porque é de coração. Eu e meu marido estamos no processo de adoção e em algum momento teremos um filho. Não sei quais são suas pretensões para mim aqui na empresa, mas acho importante que vc saiba disso. Ele foi incrível! Ficou emocionado, deu os parabéns, quase chorou. Não sabia o que fazer. Ficou genuinamente feliz. E eu ali, sem saber como reagir. Ele foi assim o processo todo. Nunca perguntava, mas sempre que eu tocava no assunto ele queria saber tudo. Sempre me apoiando nas faltas necessárias para ir ao Fórum. Dois meses depois eu fui promovida. Quando a Tamires chegou, eu não precisei falar nada, quando fui contar ele disse: chegou, não foi? Deveria estar com uma cara imbecilmente feliz e dai ele deduziu. No dia seguinte chegou com uma sacola enorme de roupas. Das filhas, que não serviam mais. Disse se queria umas roupas herdadas. Eu disse que são minhas preferidas, porque já vem carregadas de carinho. Obrigada Mateus!

Andre – Fizemos o curso no mesmo dia que o Andre. Ele estava sentado bem perto da gente e em um momento levantou a mão pra falar. Sua voz grossa encheu a sala e ele disse que estava fazendo o curso pela segunda vez. Pensei comigo: gente, será que ele foi reprovado e está fazendo tudo novamente? Então ele disse que na primeira vez estava apenas acompanhando seu marido, já que na época não era permitido adoção homoafetiva. Agora ele estava fazendo todo o processo para ter seu nome na certidão de nascimento dos dois filhos, que já estavam com eles. Um casal de irmãos. Tudo que o Andre disse foi bacana, mas uma coisa em especial foi mágica. Ele disse que logo que as crianças chegaram elas chamavam papai e os dois olhavam. A criança começou a ficar um pouco confusa e eles bastante preocupados. Como lidar com aquela situação? Que tipo de problema isso poderia causar na criança? começaram a buscar um psicólogo. Porém um dia o menino, que é um pouquinho maior, começou a chama-lo de papia. Um era o papai e o outro era papia. Ele próprio, no alto da sabedoria de sua cabecinha infantil, resolveu seu problema. Sem dor, sem caos. Andre, você é um grande exemplo!

Vó Totonha – Contar pra minha avó estava me angustiando. Apesar de amorosa, ela sempre foi muito sincera, meio dura até. Pessoas mais velhas tem outros tipos de valores. Construídos em outra época. Ela acredita muito no “poder do sangue”. Dizia: se tomar uma transfusão vinda de um ladrão, vc pode se tornar ladrão, tá no sangue. Quem sou eu pra tentar mudar como pensa uma senhora de quase 80 anos? Mas ok, me enchi de coragem e contei pra ela. Muito séria ela disse que isso era perigoso. Que não saberíamos de onde a criança vinha. Se fosse filho de ladrão, de maconheiro ou até coisa pior, como poderíamos lidar com isso? Eu disse: vó, as pessoas não são necessariamente fruto do meio em que vivem. Veja só, a senhora criou todos os seus 10 filhos do mesmo jeito, porém cada um tomou um rumo. Poucos são tão religiosos como a senhora, tem filho que usa drogas, tem filhos que tem problema com bebida, tem filhos que deram certos e outros nem tanto. Por mais que a senhora tenha se esforçado, as pessoas tem livre arbítrio e vão se tornar exatamente aquilo que escolherem. Vou me esforçar tanto quanto a senhora para cuidar do meu filho e vou pedir a Deus que o abençoe todos os dias, assim como a senhora faz comigo. Ela me abraçou e disse: vc é muito melhor que eu, minha filha. Vai criar seu filho muito bem. Espero que essa criança seja merecedora do seu amor. Dai me abraçou muito emocionada e disse que iria abençoa-lo quando chegasse. Obrigada Vó, por respeitar meu desejo, mesmo isso sendo tão diferente pra senhora.

É claro que a lista merece citar outras pessoas que foram importantes cada uma de sua maneira. Nossas famílias diretas, os amigos mais próximos. Todas foram essenciais na hora de ajudar a segurar a ansiedade, na hora de colocar pilha, na hora de ajudar a sonhar como seria. Mães, pais, irmãos, irmãs, Breno, Marcela, Godoy, Fiuza, Mariana, Fê, Léo, Rafa, Martim, Vanessa, Bressanes. Agradecemos a todos, citados e não citados (por questões de espaço). Vocês conhecem nossa história de trás pra frente. Vocês gestaram com a gente.

 

 

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3 comentários sobre “Pelo caminho

  1. Adorei o Post ! Me emocionei com o que você escreveu ! Aliás…sempre me emociono com historias onde o amor e o carinho incondicionais prevalecem !!!!!

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