A Psicóloga

Demorei pra escrever esse post porque estava procurando por onde começar. Pra mim particularmente foi a etapa mais desgastante. Eu nunca fiz terapia ou fui a um psicólogo. Nasci em uma família muito humilde onde os problemas se resolviam na conversa ou na porrada. Nunca existiu a cultura de procurar uma ajuda profissional e também não havia dinheiro pra isso. Depois que cresci nunca senti necessidade de ir a um. Tenho curiosidade com terapia, mas nunca cheguei a fazer nada.

Eis que no dia 18/07/2012 lá estamos nós no Fórum João Mendes pra conversar com a psicóloga. Pra minha surpresa ela não era do tipo analítica. Muito risonha, era despojada e transmitia com expressões faciais tudo que pensava ou sentia enquanto conversávamos. Foram duas entrevistas, na primeira estávamos eu e meu marido juntos. Ela estava com o laudo da Assistente Social em mãos e nos fazia perguntas baseada no que estava escrito no documento.

Começou dizendo: vocês afirmam no documento que cada um tem um sobrinho bem pequeno, inclusive a criança um pouco maior chegou a morar com vocês um tempo. Dissemos que sim. Foi uma experiência muito intensa que durou poucos meses mas que nos deu a certeza que gostaríamos de ter um filho. Ela disse então: vocês tem plena consciência que não será uma criança como essas lindos pequenos que são da família, certo? E prosseguiu: Existe um perigo grande em projetar na criança adotada outras crianças que  vocês conheçam. A criança que virá já tem uma história e muito provavelmente de sofrimento. Talvez não seja uma criança que corresponda aos padrões de beleza sociais ou mesmo não seja dócil e amável a primeira vista. Mas eu pergunto a vocês, será que nós seriamos atraentes para adoção? Eu por exemplo, sempre fui muito atrasada na escola e minha mãe vivia as turras comigo. Olhando para mim perguntou, você acha que seria facilmente adotada? Eu sorri e disse que duvidava muito. Eu era atrevida e muito arteira, raramente obedecia. Então ela me disse: acredito que mesmo assim sua mãe te criou com carinho e disciplina e não te deu remédios ou outro tipo de subterfúgios para fugir a um comportamento que é normal em uma criança. Então, a primeira coisa que quero deixar claro pra vocês é que avaliem suas expectativas porque o trabalho só vai começar mesmo quando o filho de vocês chegarem.

Em seguida ela fez perguntas gerais sobre a convivência familiar, carreira e visão de futuro de ambos. Parecia conferir se nossas informações batiam com o anotado pela Assistente. Foi bastante cansativo. Mas ela era uma pessoa agradável e fazia o possível para tornar a sabatina um pouco menos penosa.

Mais no final da conversa ela pegou nossa Ficha de Pretendentes a Adotantes e começou a rever todos os itens. Perguntou se era apenas uma criança mesmo. Perguntou porque de zero a quatro anos, como havíamos definido essa faixa. Perguntou sobre raça e voltou a alertar que nossa escolha provavelmente nos levaria a uma criança negra e que deveríamos nos preparar com ainda mais cautela para enfrentar os desafios da adoção interracial. Perguntou sobre as doenças físicas e psicológicas. Voltou a alertar que é difícil definir o que é leve, curável, tratável. Salientou que é importante analisarmos com cuidado a ficha da criança que nos fosse apresentada e principalmente conhece-la antes de chegar a uma conclusão. Ela disse que a fala é um dos desenvolvimentos mais afetados em crianças que vivem em abrigo. Muitas tem problemas de aprendizado também, mas isso se deve em grande parte a falta de carinho e atenção especial e que a grande maioria após acolhido por uma família passa a ter desempenho dentro dos padrões.

Após anotar algumas coisas, nos informou que o proximo passo era uma entrevista individual. Uma amiga já havia nos dito que sempre fazem mais de uma entrevista na psicologia, em alguns casos podem chegar a mais de cinco. Então minha impaciênica falou mais alto e eu disse que esperamos três meses para sermos chamados pela psicologia e eu gostaria de pedir se era possível marcar logo essa nova etapa, inclusive os dois para o mesmo dia. Acho que pedi com tanta educação e minha aflição era tão sincera que ela agendou pra mesma semana, uma entrevista seguida da outra.

Sai de lá um pouco mais aliviada. Primeiro porque as coisas voltaram a andar, segundo porque foi menos assustador do que inicialmente eu imaginava.

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