Do verbo esperar

Tem um tempo que eu não escrevo post aqui no blog. Não sei se funcionou, mas a intenção era mostrar um pouco da angústia que a espera traz. Os dias passam, passam, passam e nada de novo. Sendo que o novo significa uma vida nova.

Não é fácil. Nada fácil esperar. As pessoas dizem: o perfil que vocês registraram é bem amplo, com certeza vai ser rápido o contato. Rápido? Essa palavra também ganha uma nova dimensão. Todo o sentido de tempo ganha uma nova dimensão quando seu coração espera um filho.

Toda essa sensação me fez lembrar muito de Sidarta, de Hermam Hess. Em várias passagens do livro Sidarta é indagado sobre o que sabe fazer e sua resposta sempre é: “eu sei pensar, esperar e jejuar”. Como eu o invejava. Esperar não é bem a qualidade mais cultivada nos tempos modernos. Mas pensar sim, e eu pensava todo dia no nosso filho. Como ele seria, suas mãos, seus olhos, suas orelhas, suas costas. Eu pensava no seu cheiro, no calor do seu corpinho, na sua presença enchendo a casa. Certezas e medos enchiam meu coração e faziam meu sangue aquecer e esfriar com a mesma intensidade.

Fiz vários ensaios sobre como organizar a casa ou as coisas no trabalho para quando me ausentasse. Mas sem uma noção de data toda tentativa era em vão.

Acabou setembro e começou outubro, com ele veio o dia das crianças. Eu rezava para que fosse o ultimo dia das crianças sem um pequeno ao nosso lado. Chegou novembro e um principio de expectativa de passar um natal muito especial. Como é difícil restringir os sonhos! Você não quer se iludir criando expectativas, mas a todo templo se flagra fazendo planos.

No meio de novembro liguei no fórum. Não tivemos mais nenhuma notícia deles e o processo não registrava nenhuma movimentação pela internet. Eu queria saber se já estávamos inscritos no Cadastro Nacional de Adoção. Em vão! Fui informada que o processo de homologação estava encerrado e não havia nada a ser feito além de esperar. Agora os trâmites eram internos e não seriam realmente registrados. Ficamos no escuro.

Novembro se arrastou lentamente e dezembro chegou. Não tivemos ânimo de montar a árvore de natal. Estávamos bem desanimados com as festas de final de ano. Não planejamos nenhuma viagem, nem mesmo para casa dos nossos pais porque não sabíamos quando a criança poderia chegar. O mês foi passando na velocidade de todo final de ano, muito rápido.

As pessoas perguntavam: e aí, alguma novidade? Dizíamos: ainda esperando. Então retrucavam: mas tem pouco tempo ainda. Já já eles ligam. Ai ai… percepção de tempo realmente é uma coisa muito relativa.

Quando dezembro fez dez dias decidimos ligar no Fórum e perguntar quando entrariam em recesso. Assim poderíamos desencanar de vez e empurrar a angústia da espera para o ano seguinte. Dia 20. Essa era a data. Imediatamente concluímos: ninguém vai nos ligar pra adotar uma criança às vésperas de um recesso que duraria até o dia 7 do outro ano.

Tentamos fazer parecer para nós mesmo que era um consolo ter alguma definição, ainda que a menos desejada possível. Tipo uma pílula de alívio. Chegamos a olhar pacotes de viagens. Cogitamos ir para Tókio, um destino que está no topo da nossa wishilist. Analisando isso hoje, inegável reconhecer que havia uma boa dose de fuga viajar ao Japão, assim, de sopetão. Era a vontade do momento, ir para o outro lado do mundo, bem longe da nossa frustração, da nossa espera. Como se correr em torno do mundo fosse suficiente para aplacar a ansiedade.

Curiosamente, havíamos planejado nossas férias também por volta do dia 20. Brincamos: em dez dias o telefone pode tocar sendo alguém da agência de turismo com informações de viagem ou do fórum falando pra conhecermos nosso filho. No dia 12 o telefone tocou. No próximo post conto quem estava do outro lado da linha.

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3 comentários sobre “Do verbo esperar

  1. Nãooooooo!!!! not fair!!! é como ler um livro e quando chega na melhor parte a gente perde ele!!! PLEASE! Quem estava do outro lado da linha?????? 🙂

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