O grande momento

Por Cris e Agê, narrado por Agê.

Era um dia muito quente aquele 12 de dezembro. Estávamos bastante desgastados emocionalmente e cansados do trabalho. Pegamos o metrô e ainda precisamos de um táxi para chegar ao abrigo. Quando paramos em frente ao endereço informado pela assistente social me senti um pouco mais recarregado. A casa não era sombria como a outra. Era espaçosa, bem cuidada, cheia de vida. E quantas vidas.

A psicóloga que nos recebeu foi muito receptiva e profissional. Soube conduzir a situação desde o início. Ficou claro que o procedimento recomendado pelo fórum seria seguido à risca porque nenhuma criança tinha ideia de quem haviamos ido conhecer. Começamos bem, pensei.

Enquanto ela descrevia a Tamires meu coração batia mais pesado. Minha cabeça fazia o contraponto racional dizendo pra segurar a onda, visto nosso histórico recente. Dócil, tímida, de pouco sorriso, mas amável, carinhosa e danada quando se juntava com a amiguinha preferida, Bel. Eis o perfil da Tamires.

Chegamos à sala de TV. Habilidosamente, os cuidadores tinham formado um quadrado usando os sofás. Lá no meio as crianças menores brincavam no chão. Outras assistiam hipnotizadas a Galinha Pintadinha na TV. As maiores estavam deitadas e foram as primeiras a ficar mais agitadas com a nossa chegada. Queriam impressionar.

“É a de blusa vermelha e calça fusô estampada”, sussurrou a psicóloga. Se referia a Tamires. “Quem vocês vieram conhecer?”, tascou logo uma menininha de uns 6 anos. Antes que a gente gaguejasse uma resposta, a psicóloga interveio firmemente dizendo que estávamos ali para conhecer a casa e visitar todo mundo.

Entramos no quadrado e sentamos no sofá bem em frente à TV. Tamires estava de costas para nós, vidrada no desenho. Parecia nem ter notado nossa presença. De repente, mas muito de repente, ela olhou para trás bem direto nos meus olhos. Como quem sai de um transe, levantou rapidamente, correu na minha direção e estendeu os braços, pedindo colo. Engoli seco. Pisquei rápido naquela tentativa inútil de disfarçar uma lágrima. Ela se ajeitou no meu colo e voltou a olhar para a TV. Olhei para a Cris e foi bem difícil não chorar. Meu coração estava avisando que aquela era a nossa filha. Busquei e encontrei o mesmo sentimento no olhar da Cris.

Dei um beijo no seu rostinho. Ela não achou ruim, pelo contrário, apertou minha mão com sua mãozinha. A Cris tentou interagir, mas ela já havia voltado ao estado inexplicavelmente hipnótico que aquela Galinha Pintadinha provoca nas crianças. Tudo bem, senti a Cris sentindo.

Novamente, de repente, muito de repente, Tamires salta para o colo da Cris e imediatamente trata de segurar minha mão. O laço estava feito. Não éramos mais um e outro. Não era mais só ela. Os três eram um só. O sorriso que li no olhar da Cris foi um dos mais belos que ela já me deu – e ela é muito boa nisso. Olho para a psicóloga e ela me pareceu emocionada, ali, em pé, com uma das mãos cobrindo a boca. Meu olhar deixou claro pra ela que levaríamos adiante uma aproximação com Tamires.

Logo em seguida meu coração se aquietou. Fiquei numa tranquilidade como há muito não experimentava. A ansiedade era outra. A vontade era acelerar o tempo e as estapas. Mas rapidamente meu racional correu para socorrer a razão que começava a entrar em desvantagem para a emoção.

Meu transe foi interrompido pela Bel, que estava tentando escalar o colo da Cris, disputando espaço com Tamires. Foi a primeira vez que ouvimos sua voz: “aqui não, Bel!”. A Cris sorriu e disse que havia colo para ambas, sentando a amiguinha na outra perna. Tamires não deu like, mas deixou.

Incrivelmente, a atmosfera na sala mudou. As crianças maiores que até então se esforçavam para chamar a atenção começaram a interagir com a gente de uma forma muito dócil. Uns cantavam, outros dançavam. Um menino fez questão de mostrar que sabia contar até dez em inglês. Pareciam também sentir que nossa visita havia se transformado num encontro de família. Tamires ali, calada. Não quis cantar mesmo quando Bel a puxou pelo braço.

Ficamos cerca de duas horas e durante todo esse tempo a Tamires se revezou no colo de um e de outro. No menor sinal que iríamos colocá-la no chão ela nos olhava com seus grandes olhos tristonhos e balançava a cabeça em sinal negativo.

O tempo foi fechando e uma tempestade de verão se aproximava, então decidimos ir. Foi difícil convencer Tamires a descer do colo. A psicóloga, que ficou presente durante toda a visita, nos levou novamente ao escritório e perguntou se gostaríamos de voltar. Olhamos um para o outro e sorrimos dizendo que sim, queríamos conhecê-la melhor. Fomos informados que éramos o segundo casal a visitá-la, o primeiro não quis voltar. Dei graças a Deus. Marcamos de voltar no sábado. Saímos sem dar muitas explicações porque não queríamos vê-la chorar, mas dava para sentir no peito aqueles grandes olhos tristes nos seguindo por toda parte.

Ao sairmos não nos falamos num primeiro momento. A cabeça tava uma confusão enorme. Não sabia se corria pra não pegar chuva, se parava pra comprar uma água (a garganta tava seca), se voltava pra ficar com ela mais um pouquinho.

Preferimos caminhar até o metrô e chegamos debaixo dos primeiros pingos de chuva. Meu olhos insistiam em encher de lágrimas e eu lutava pra que elas não descessem. Cris a mesma coisa. Olhou para mim e a primeira coisa que disse foi: e agora, já pode gritar gol? Não deu mais pra segurar. Rimos chorando abraçados dentro do vagão lotado.

A sensação de felicidade se mistura com a do medo. Você quer mesmo é ligar pra todo mundo, gritar, mas e se não der certo e se não for aquela criança? Então resolvemos não contar para ninguém. Sabíamos que uma aproximação era necessária e então deixaríamos a coisa amadurecer um pouco mais. Mas nada segura o coração, que nesse momento tinha um motivo muito forte pra estar descompassado, agitado e tomado de esperança.

Não seria fácil vencer a sexta para estar novamente com ela no sábado, dia da próxima visita. Mas sabíamos que seria um encontro decisivo e estávamos ansiosos. Em nossos corações ela já era a nossa filha. Restava saber se no coração dela já éramos seus pais.

Um novo dia

Ainda com o coração cheio de dor e a cabeça ainda confusa, o dia seguinte a visita ao fórum se passou lentamente. Agora só pensávamos no que poderia ser feito para descansarmos e sair do ar um pouco.

Acabei saindo mais cedo do trabalho e fui pra casa pegar o Age para irmos até um agência de viagem ver o que dava pra ser feito. Já era dia 12 de dezembro. O telefone tocou quando nos aprontávamos para sair e para nosso enorme espanto, era do fórum.

Era uma Assistente social diferente dessa vez. Ela disse que havia uma ficha para conhecermos, se havia interesse. Era tudo tão recente que eu disse: Senhora, já visitamos a criança. Ela então sorriu e disse: não, é outra criança, dessa vez uma menina de dois anos.

Olhei para meu marido com os olhos arregalados e disse que era outra criança. Em uma fração de segundos eu pensei um milhão de coisas e pela cara atônita dele sua cabeça também estava a mil. Dai sorri pra ele e recebi um sorriso de aprovação de volta. Então disse para a Assistente que iríamos sim. Lá vamos nós outra vez, pensei.

Desliguei o telefone com o compromisso de nos encontrarmos no fórum na tarde do dia seguinte. Mas dessa vez foi diferente, ainda com a pancada fresca, não ficamos pulando e sorridentes. Estávamos serenos, não sei se tranquilos ou abatidos. Ficamos realmente surpresos que a ligação viesse assim tão rápido. Rezamos para termos energia para aguentar mais esse turbilhão de sentimentos. Mas sinceramente, é impossível alguém te ligar dizendo que tem uma ficha para você conhecer e você simplesmente declinar, dizer que agora não, deixa eu viajar um pouquinho pra descansar. Não dá mesmo.

Estranhamente dormi muito bem aquela noite, não fiquei com a cabeça fervilhando. Na manhã seguinte não ficamos falando no assunto o tempo todo. Lembro apenas de me preocupar se a cortina que havia colocado no quarto era feminina o suficiente. Que preocupação mais boba, sorrio agora lembrando.

Chegamos no horário combinado e tivemos que esperar um bom tempo. Ao nos receber a Assistente, muito sorridente e simpática, disse que precisou de um tempo para entender direito o processo porque ele era muito grande e confuso. Nos explicou de onde veio a garotinha, ha quanto tempo havia sido acolhida, qual era sua condição de saúde. Tudo como manda o protocolo. Ouvimos tudo com muita atenção e então eu perguntei: qual é o perfil psicológico dela? A Assistente disse que havia um registro da psicóloga do abrigo dizendo que era uma menina tranquila e dócil, mas que ficava bastante brava quando alguém pegava seus brinquedos. Sorrimos e então ela mostrou a foto. Era uma menininha com lindos olhos negros, mas de olhar muito vazio, quase não tinha cabelos e sua pela era um pouco manchada. Numa segunda foto ela parecia se esforçar para sorrir, mas parecia não ter muita prática nisso.

Ficamos em silêncio e então a Assistente perguntou se gostaríamos de fazer um contato pessoalmente, olhamos um para o outro para dizer que sim. Vamos até lá conhece-la.

Novamente a Assistente disse que a criança não saberia a quem se destinaria a visita, disse ainda que a juíza não estava, mas havia deixado a autorização de visita assinada. Suspirei aliviada por não ter que encarar o Capitão Nascimento novamente.

Saímos do Fórum com a autorização nas mãos, querendo sorrir, mas morrendo de medo. É um enorme exercício de auto domínio, onde só um grande sonho é capaz de superar o medo e frustração. Eu não sabia se seria essa menina ou se seria uma nova decepção, mas tinha plena certeza que precisava tentar.

A pessoa certa na hora certa

No dia seguinte, no horário agendado, me enchi de coragem e liguei pra psicóloga. Falei o que eu e meu marido combinamos (e que sempre foi a nossa opção durante todo esse processo): a verdade, a mais pura verdade. Claro que minha fala era rápida, confusa e cheia de pesar. Expliquei a situação o mais breve que pude pois queria acabar logo com aquela conversa.

A psicóloga ouviu tudo atentamente e fez algumas perguntas pontuais que respondi com a mesma sinceridade. Então ela perguntou se poderíamos ir ao fórum para conversarmos pessoalmente. Eu disse que sim.

Estávamos no Fórum no final daquela mesma tarde. Ela nos recebeu séria como sempre e nos levou até sua sala. Então disse que nos pediu para ir até lá porque havia ficado muito preocupada com a minha reação. Que minha fala estava carregada de culpa e muito fragilizada e ela gostaria de entender melhor o que havia se passado.

Meu marido então começou a colocar o ponto de vista dele e naquele momento comecei a chorar. Ele disse as mesmas coisas que eu e em alguns momentos eu complementei o que ele dizia. Ao finalizarmos ela disse: primeiramente é importante que vocês saibam que por mais que façamos um trabalho de traçar o perfil dos pretendentes à adoção, é somente após um primeiro contato que isso fica consolidado. Às vezes na primeira já dá certo, mas é mais raro do que se pensa. Além disso, de fato esse menino tem um perfil psicológico bastante complicado e talvez isso devesse ter ficado mais claro para vocês antes do agendamento da visita.

Nesse momento eu respirei e ela continuou: eu pedi que viessem aqui para encorajá-los a continuar no processo. Não desistam após essa primeira tentativa frustrada. Vocês foram maduros ao fazer a recusa e não insistir. Isso é para vida toda e, se não houver o mínimo de empatia e o máximo de certeza, insistir só causaria mais frustração para todos os envolvidos. Vocês não serão julgados, penalizados, nem vão para o fim da fila ou serão avaliados novamente. Isso não existe aqui. Acalmem o coração de vocês e entendam que esse fato serviu para alertá-los sobre a ansiedade, vocês precisam dominá-la.

O que aquela mulher fez foi pegar nosso coração sangrando e colocar um curativo. Ela foi tão gentil e tão compreensiva. Seremos eternamente gratos. Talvez se não fosse aquela revigorante conversa a culpa e o medo não nos teria permitido prosseguir. Voltamos para fila, voltamos a esperar e a rezar para que aquele garoto encontrasse uma família que pudesse abraçá-lo com o amor, cuidado e carinho que ele merece e precisa.

Nossa espera continuava e também a busca de uma viagem para o final do ano. Definitivamente agora aquilo era necessário. Precisávamos de um tempo.

Expectativa, a mãe da frustração

Eu nem me lembro ao certo quando foi, acho que foi 10 de dezembro. Sei que estava em uma reunião bem demorada e quase sendo dominada pelo sono até que o telefone tocou. Era um número desconhecido e eu atendi. Era do fórum. A assistente social disse que havia a ficha de uma criança para conhecermos e perguntou se teríamos disponibilidade para ir ao fórum.

Eu não consigo descrever a explosão de sentimentos. Eu mal conseguia respirar. Disse com a maior felicidade do mundo que sim, tínhamos enorme interesse em conhecer a ficha. Então ela agendou para o dia seguinte no início da tarde.

Eu liguei pro meu marido na sequência. Gritava ao telefone, ele mal entendia o que eu dizia. Dei graças a Deus por estar no final do dia porque não tinha cabeça pra mais nada. Então logo que possível fui embora.

Cheguei em casa já chorando de felicidade. Eu e meu marido nos abraçamos sorrindo dizendo que nosso filho tinha chegado. Tudo parecia incrível. Foi impossível dormir aquela noite. Resolvemos não contar nada para ninguém, nem para nossos pais.

Levantamos cedo já cheios de planos, pensávamos no natal, em um monte de coisas. Seguimos para o Fórum com bastante antecedência e acabamos chegando cedo. Parecíamos caminhar sobre nuvens. Demos uma volta por ali até podermos subir.

Esperamos um pouco até a Assistente nos chamar.  Aquele sorriso bobo não saía da nossa cara e a respiração entrecortada não permitia disfarçar a ansiedade. A mulher com quem conversamos tinha a fala lenta, pausada. Começou contando a historia da criança, de onde veio,  há quanto tempo estava no abrigo, em que circunstâncias foi acolhida, sua situação jurídica, seu estado de saúde. Escutávamos  tudo com muita atenção mas querendo chegar logo na parte de: quando podemos conhecer.

A Assistente dava muitas recomendações sobre não gerar expectativas, que visitas são importantes para ter uma noção de primeiro contato, mas que fizéssemos isso com tranquilidade. Mas como é possível agir assim? Ela então nos mostrou a foto. Era um menino de quatro anos. Parecia um menino como outro qualquer na sua idade. Meus olhos se encheram de lágrimas e meu coração não tinha dúvidas que tudo daria certo.

Antes de nos perguntar se gostaríamos de conhecê-lo, a assistente chamou a psicóloga do Fórum responsável pelo acompanhamento do menino para que pudesse nos dar um panorama geral.

A psicóloga era uma  mulher alta, loira e muito séria. Nos disse para não gerar grande expectativa porque o garoto era arredio e de comportamento instável. Que deveríamos ter paciência e esperar ele se aproximar. Foi taxativa quanto a isso. A conversa durou cerca de 10 minutos que deveriam ter servido para nos alertar, mas isso não aconteceu porque estávamos tão certos….

Então a Assistente nos levou até a sala da Juíza. Sim, tivemos esse segundo encontro com o capitão Nascimento. A sala dela é grande e fica preenchida pela sua voz firme. Ela se sentou em um sofá a nossa frente, disse que éramos um bonito casal e falou brevemente sobre a responsabilidade que estávamos prestes a assumir. Surpreendentemente, falou sobre algo que não está em nenhuma literatura jurídica, nem curso preparatório nem nada: a ligação silenciosa mas poderosa que formará o laço familiar entre o casal e a criança. Um laço que muitas vezes não se estabelece de primeira e isso é absolutamente natural e compreensível, disse ela. Eu, numa das maiores oportunidades de ficar calada na minha vida, munida de uma certeza que beirava a arrogância, só quis dizer: eu sabia que seria um menino, coração de mãe não se engana. Ai ai….

Por fim fomos informados que a criança não saberia da nossa visita. Seríamos recebido no meio de todas as crianças e a coordenadora nos apontaria de longe quem era o menino que correspondia a ficha. Eles faziam isso para não gerar expectativa na criança. Se não fossemos voltar, ela não se sentiria rejeitada. Esse é  o benefício. O cruel é que não sabendo a quem se destina a visita, todos se sentem adotados em potencial….

Pegamos endereço, autorização judicial de visita e fomos confiantes com o compromisso de dar retorno para a interessada psicóloga logo na manhã seguinte.

Era um dia muito quente e fomos de metrô. Chegamos no lugar suados e extasiados. Nos deparamos com uma casa muito velha com portão de ferro todo enferrujado. Poucas vezes eu vi um lugar tão precário. Era quente e úmido. Tinha mofo e sujeira e um monte de crianças de todas as idades misturadas. Estávamos num cenário de filme brasileiro retratado por estrangeiro.

A coordenadora nos atendeu, nos levou até uma sala muito abafada e cheia de coisas e conversamos rapidamente. Contrariando o que a assistente disse, parecia que todo mundo já sabia quem iríamos visitar e ao abrir o portão que dava para onde as crianças estavam, ela já disse alto: aquele é o menino.

Ficamos meio sem reação e o menino nos olhou como um pequeno animal assustado. Pulou no meu colo e puxou meu cabelo para na sequência ir para o chão e puxar meu marido pelo braço quintal afora.

Não conseguíamos entender uma palavra do que ele dizia, ele gritava e subia em tudo que via pela frente. Agia de forma agressiva quando outras crianças se aproximavam de nós e dizia alguns palavrões.

Muito assustada eu me abaixei e tentei conversar olhando para ele. Mas ele só pulava, corria e gritava me puxando pela mão. Meu marido também tentou sentá-lo no colo para conversar. Mas ele subiu em seus ombros e puxou seus óculos. Seria uma excitação típica de uma criança agitada, mas ia muito além disso.

Em um segundo toda a certeza que tínhamos desapareceu e se transformou em uma gigantesca angústia. Ficamos por lá cerca de uma hora e durante todo esse tempo a tentativa de manter um contato mais próximo foi em vão. Ele sorria e pulava em nosso braços mas era possível ver claramente que ele não estava ali. Pulava, mexia, saltava, corria. Mas sequer olhou diretamente pra gente. Não disse uma palavra para nós, não ouviu uma palavra do que dissemos. Não  houve conexão alguma.

Eu queria sair dali correndo, chorando, gritando, mas me contive e educadamente nos despedimos das crianças e também da coordenadora.

Saímos e não nos falamos. Nossas cabeças estavam a mil e o nó na garganta não permitia sair uma palavra da minha boca. O que era para ser um momento mágico se transformou em um pesadelo. Caminhamos um bom tempo lado a lado tentando entender tudo que havia acontecido. Até que passamos por um café e resolvemos sentar para tomar uma água.

A primeira frase que consegui dizer foi: não quero voltar naquele lugar. Estava tão atônita que nem conseguia chorar. Meu marido segurou minha mão com força e disse: eu sei, eu também não. Permanecemos mais um tempo sentados em silêncio e então fomos para casa.

Depois de um tempo e um banho começamos a conversar para colocar as idéias em ordem.  Falamos horas a fio e foi então que consegui chorar. Um choro de medo, culpa, frustração, remorso, dor, vergonha. Quando finalmente conseguimos racionalizar o turbilhão de emoções, concluímos que não houve empatia de nenhuma das partes. Nós não conseguíamos enxergá-lo em nossa vida e ele não se mostrou presente em nenhum momento.

Você pode pensar, mas a assistente disse que ele era arredio e tudo mais, por que não insistir um pouco mais? Porque nós não precisávamos de mais nem um minuto para saber que não daria certo, que ele não era o nosso filho, que nós não éramos seus pais. E não dá para elencar motivos pontuais, específicos, racionais. Foi algo de coração. Aquela ligação poderosa mas silenciosa à qual a juíza se referiu não tinha acontecido. Ponto.

Mesmo que eu escreva horas e horas não será possível transcrever o quanto foi doloroso passar por isso. Só resolvemos nos expor e narrar essa situação tão delicada para mostrar às pessoas que isso acontece sim, e que o desejo não é o pai da realidade. Por mais que você queira, existe uma coisa maior que rege os caminhos e as oportunidades e nesse dia nós ganhamos um sonoro não da vida. Por algum motivo era para termos essa dura experiência. Nos consolamos. Não era para ser aquela criança, não era para sermos seus pais.

Passada a reflexão sobre o ocorrido, começou o pavor do retorno que deveria ser dado à psicóloga. Como eu poderia encarar aquelas pessoas novamente depois de ter saído de lá batendo no peito como havia feito?

Várias coisas nos passou pela cabeça: vão nos reavaliar, vamos para o último lugar da “fila”, vão forçar a barra para ficarmos com o menino e bla bla bla…. Mais uma noite em claro pela frente.