A pessoa certa na hora certa

No dia seguinte, no horário agendado, me enchi de coragem e liguei pra psicóloga. Falei o que eu e meu marido combinamos (e que sempre foi a nossa opção durante todo esse processo): a verdade, a mais pura verdade. Claro que minha fala era rápida, confusa e cheia de pesar. Expliquei a situação o mais breve que pude pois queria acabar logo com aquela conversa.

A psicóloga ouviu tudo atentamente e fez algumas perguntas pontuais que respondi com a mesma sinceridade. Então ela perguntou se poderíamos ir ao fórum para conversarmos pessoalmente. Eu disse que sim.

Estávamos no Fórum no final daquela mesma tarde. Ela nos recebeu séria como sempre e nos levou até sua sala. Então disse que nos pediu para ir até lá porque havia ficado muito preocupada com a minha reação. Que minha fala estava carregada de culpa e muito fragilizada e ela gostaria de entender melhor o que havia se passado.

Meu marido então começou a colocar o ponto de vista dele e naquele momento comecei a chorar. Ele disse as mesmas coisas que eu e em alguns momentos eu complementei o que ele dizia. Ao finalizarmos ela disse: primeiramente é importante que vocês saibam que por mais que façamos um trabalho de traçar o perfil dos pretendentes à adoção, é somente após um primeiro contato que isso fica consolidado. Às vezes na primeira já dá certo, mas é mais raro do que se pensa. Além disso, de fato esse menino tem um perfil psicológico bastante complicado e talvez isso devesse ter ficado mais claro para vocês antes do agendamento da visita.

Nesse momento eu respirei e ela continuou: eu pedi que viessem aqui para encorajá-los a continuar no processo. Não desistam após essa primeira tentativa frustrada. Vocês foram maduros ao fazer a recusa e não insistir. Isso é para vida toda e, se não houver o mínimo de empatia e o máximo de certeza, insistir só causaria mais frustração para todos os envolvidos. Vocês não serão julgados, penalizados, nem vão para o fim da fila ou serão avaliados novamente. Isso não existe aqui. Acalmem o coração de vocês e entendam que esse fato serviu para alertá-los sobre a ansiedade, vocês precisam dominá-la.

O que aquela mulher fez foi pegar nosso coração sangrando e colocar um curativo. Ela foi tão gentil e tão compreensiva. Seremos eternamente gratos. Talvez se não fosse aquela revigorante conversa a culpa e o medo não nos teria permitido prosseguir. Voltamos para fila, voltamos a esperar e a rezar para que aquele garoto encontrasse uma família que pudesse abraçá-lo com o amor, cuidado e carinho que ele merece e precisa.

Nossa espera continuava e também a busca de uma viagem para o final do ano. Definitivamente agora aquilo era necessário. Precisávamos de um tempo.

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