Expectativa, a mãe da frustração

Eu nem me lembro ao certo quando foi, acho que foi 10 de dezembro. Sei que estava em uma reunião bem demorada e quase sendo dominada pelo sono até que o telefone tocou. Era um número desconhecido e eu atendi. Era do fórum. A assistente social disse que havia a ficha de uma criança para conhecermos e perguntou se teríamos disponibilidade para ir ao fórum.

Eu não consigo descrever a explosão de sentimentos. Eu mal conseguia respirar. Disse com a maior felicidade do mundo que sim, tínhamos enorme interesse em conhecer a ficha. Então ela agendou para o dia seguinte no início da tarde.

Eu liguei pro meu marido na sequência. Gritava ao telefone, ele mal entendia o que eu dizia. Dei graças a Deus por estar no final do dia porque não tinha cabeça pra mais nada. Então logo que possível fui embora.

Cheguei em casa já chorando de felicidade. Eu e meu marido nos abraçamos sorrindo dizendo que nosso filho tinha chegado. Tudo parecia incrível. Foi impossível dormir aquela noite. Resolvemos não contar nada para ninguém, nem para nossos pais.

Levantamos cedo já cheios de planos, pensávamos no natal, em um monte de coisas. Seguimos para o Fórum com bastante antecedência e acabamos chegando cedo. Parecíamos caminhar sobre nuvens. Demos uma volta por ali até podermos subir.

Esperamos um pouco até a Assistente nos chamar.  Aquele sorriso bobo não saía da nossa cara e a respiração entrecortada não permitia disfarçar a ansiedade. A mulher com quem conversamos tinha a fala lenta, pausada. Começou contando a historia da criança, de onde veio,  há quanto tempo estava no abrigo, em que circunstâncias foi acolhida, sua situação jurídica, seu estado de saúde. Escutávamos  tudo com muita atenção mas querendo chegar logo na parte de: quando podemos conhecer.

A Assistente dava muitas recomendações sobre não gerar expectativas, que visitas são importantes para ter uma noção de primeiro contato, mas que fizéssemos isso com tranquilidade. Mas como é possível agir assim? Ela então nos mostrou a foto. Era um menino de quatro anos. Parecia um menino como outro qualquer na sua idade. Meus olhos se encheram de lágrimas e meu coração não tinha dúvidas que tudo daria certo.

Antes de nos perguntar se gostaríamos de conhecê-lo, a assistente chamou a psicóloga do Fórum responsável pelo acompanhamento do menino para que pudesse nos dar um panorama geral.

A psicóloga era uma  mulher alta, loira e muito séria. Nos disse para não gerar grande expectativa porque o garoto era arredio e de comportamento instável. Que deveríamos ter paciência e esperar ele se aproximar. Foi taxativa quanto a isso. A conversa durou cerca de 10 minutos que deveriam ter servido para nos alertar, mas isso não aconteceu porque estávamos tão certos….

Então a Assistente nos levou até a sala da Juíza. Sim, tivemos esse segundo encontro com o capitão Nascimento. A sala dela é grande e fica preenchida pela sua voz firme. Ela se sentou em um sofá a nossa frente, disse que éramos um bonito casal e falou brevemente sobre a responsabilidade que estávamos prestes a assumir. Surpreendentemente, falou sobre algo que não está em nenhuma literatura jurídica, nem curso preparatório nem nada: a ligação silenciosa mas poderosa que formará o laço familiar entre o casal e a criança. Um laço que muitas vezes não se estabelece de primeira e isso é absolutamente natural e compreensível, disse ela. Eu, numa das maiores oportunidades de ficar calada na minha vida, munida de uma certeza que beirava a arrogância, só quis dizer: eu sabia que seria um menino, coração de mãe não se engana. Ai ai….

Por fim fomos informados que a criança não saberia da nossa visita. Seríamos recebido no meio de todas as crianças e a coordenadora nos apontaria de longe quem era o menino que correspondia a ficha. Eles faziam isso para não gerar expectativa na criança. Se não fossemos voltar, ela não se sentiria rejeitada. Esse é  o benefício. O cruel é que não sabendo a quem se destina a visita, todos se sentem adotados em potencial….

Pegamos endereço, autorização judicial de visita e fomos confiantes com o compromisso de dar retorno para a interessada psicóloga logo na manhã seguinte.

Era um dia muito quente e fomos de metrô. Chegamos no lugar suados e extasiados. Nos deparamos com uma casa muito velha com portão de ferro todo enferrujado. Poucas vezes eu vi um lugar tão precário. Era quente e úmido. Tinha mofo e sujeira e um monte de crianças de todas as idades misturadas. Estávamos num cenário de filme brasileiro retratado por estrangeiro.

A coordenadora nos atendeu, nos levou até uma sala muito abafada e cheia de coisas e conversamos rapidamente. Contrariando o que a assistente disse, parecia que todo mundo já sabia quem iríamos visitar e ao abrir o portão que dava para onde as crianças estavam, ela já disse alto: aquele é o menino.

Ficamos meio sem reação e o menino nos olhou como um pequeno animal assustado. Pulou no meu colo e puxou meu cabelo para na sequência ir para o chão e puxar meu marido pelo braço quintal afora.

Não conseguíamos entender uma palavra do que ele dizia, ele gritava e subia em tudo que via pela frente. Agia de forma agressiva quando outras crianças se aproximavam de nós e dizia alguns palavrões.

Muito assustada eu me abaixei e tentei conversar olhando para ele. Mas ele só pulava, corria e gritava me puxando pela mão. Meu marido também tentou sentá-lo no colo para conversar. Mas ele subiu em seus ombros e puxou seus óculos. Seria uma excitação típica de uma criança agitada, mas ia muito além disso.

Em um segundo toda a certeza que tínhamos desapareceu e se transformou em uma gigantesca angústia. Ficamos por lá cerca de uma hora e durante todo esse tempo a tentativa de manter um contato mais próximo foi em vão. Ele sorria e pulava em nosso braços mas era possível ver claramente que ele não estava ali. Pulava, mexia, saltava, corria. Mas sequer olhou diretamente pra gente. Não disse uma palavra para nós, não ouviu uma palavra do que dissemos. Não  houve conexão alguma.

Eu queria sair dali correndo, chorando, gritando, mas me contive e educadamente nos despedimos das crianças e também da coordenadora.

Saímos e não nos falamos. Nossas cabeças estavam a mil e o nó na garganta não permitia sair uma palavra da minha boca. O que era para ser um momento mágico se transformou em um pesadelo. Caminhamos um bom tempo lado a lado tentando entender tudo que havia acontecido. Até que passamos por um café e resolvemos sentar para tomar uma água.

A primeira frase que consegui dizer foi: não quero voltar naquele lugar. Estava tão atônita que nem conseguia chorar. Meu marido segurou minha mão com força e disse: eu sei, eu também não. Permanecemos mais um tempo sentados em silêncio e então fomos para casa.

Depois de um tempo e um banho começamos a conversar para colocar as idéias em ordem.  Falamos horas a fio e foi então que consegui chorar. Um choro de medo, culpa, frustração, remorso, dor, vergonha. Quando finalmente conseguimos racionalizar o turbilhão de emoções, concluímos que não houve empatia de nenhuma das partes. Nós não conseguíamos enxergá-lo em nossa vida e ele não se mostrou presente em nenhum momento.

Você pode pensar, mas a assistente disse que ele era arredio e tudo mais, por que não insistir um pouco mais? Porque nós não precisávamos de mais nem um minuto para saber que não daria certo, que ele não era o nosso filho, que nós não éramos seus pais. E não dá para elencar motivos pontuais, específicos, racionais. Foi algo de coração. Aquela ligação poderosa mas silenciosa à qual a juíza se referiu não tinha acontecido. Ponto.

Mesmo que eu escreva horas e horas não será possível transcrever o quanto foi doloroso passar por isso. Só resolvemos nos expor e narrar essa situação tão delicada para mostrar às pessoas que isso acontece sim, e que o desejo não é o pai da realidade. Por mais que você queira, existe uma coisa maior que rege os caminhos e as oportunidades e nesse dia nós ganhamos um sonoro não da vida. Por algum motivo era para termos essa dura experiência. Nos consolamos. Não era para ser aquela criança, não era para sermos seus pais.

Passada a reflexão sobre o ocorrido, começou o pavor do retorno que deveria ser dado à psicóloga. Como eu poderia encarar aquelas pessoas novamente depois de ter saído de lá batendo no peito como havia feito?

Várias coisas nos passou pela cabeça: vão nos reavaliar, vamos para o último lugar da “fila”, vão forçar a barra para ficarmos com o menino e bla bla bla…. Mais uma noite em claro pela frente.

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