Um novo dia

Ainda com o coração cheio de dor e a cabeça ainda confusa, o dia seguinte a visita ao fórum se passou lentamente. Agora só pensávamos no que poderia ser feito para descansarmos e sair do ar um pouco.

Acabei saindo mais cedo do trabalho e fui pra casa pegar o Age para irmos até um agência de viagem ver o que dava pra ser feito. Já era dia 12 de dezembro. O telefone tocou quando nos aprontávamos para sair e para nosso enorme espanto, era do fórum.

Era uma Assistente social diferente dessa vez. Ela disse que havia uma ficha para conhecermos, se havia interesse. Era tudo tão recente que eu disse: Senhora, já visitamos a criança. Ela então sorriu e disse: não, é outra criança, dessa vez uma menina de dois anos.

Olhei para meu marido com os olhos arregalados e disse que era outra criança. Em uma fração de segundos eu pensei um milhão de coisas e pela cara atônita dele sua cabeça também estava a mil. Dai sorri pra ele e recebi um sorriso de aprovação de volta. Então disse para a Assistente que iríamos sim. Lá vamos nós outra vez, pensei.

Desliguei o telefone com o compromisso de nos encontrarmos no fórum na tarde do dia seguinte. Mas dessa vez foi diferente, ainda com a pancada fresca, não ficamos pulando e sorridentes. Estávamos serenos, não sei se tranquilos ou abatidos. Ficamos realmente surpresos que a ligação viesse assim tão rápido. Rezamos para termos energia para aguentar mais esse turbilhão de sentimentos. Mas sinceramente, é impossível alguém te ligar dizendo que tem uma ficha para você conhecer e você simplesmente declinar, dizer que agora não, deixa eu viajar um pouquinho pra descansar. Não dá mesmo.

Estranhamente dormi muito bem aquela noite, não fiquei com a cabeça fervilhando. Na manhã seguinte não ficamos falando no assunto o tempo todo. Lembro apenas de me preocupar se a cortina que havia colocado no quarto era feminina o suficiente. Que preocupação mais boba, sorrio agora lembrando.

Chegamos no horário combinado e tivemos que esperar um bom tempo. Ao nos receber a Assistente, muito sorridente e simpática, disse que precisou de um tempo para entender direito o processo porque ele era muito grande e confuso. Nos explicou de onde veio a garotinha, ha quanto tempo havia sido acolhida, qual era sua condição de saúde. Tudo como manda o protocolo. Ouvimos tudo com muita atenção e então eu perguntei: qual é o perfil psicológico dela? A Assistente disse que havia um registro da psicóloga do abrigo dizendo que era uma menina tranquila e dócil, mas que ficava bastante brava quando alguém pegava seus brinquedos. Sorrimos e então ela mostrou a foto. Era uma menininha com lindos olhos negros, mas de olhar muito vazio, quase não tinha cabelos e sua pela era um pouco manchada. Numa segunda foto ela parecia se esforçar para sorrir, mas parecia não ter muita prática nisso.

Ficamos em silêncio e então a Assistente perguntou se gostaríamos de fazer um contato pessoalmente, olhamos um para o outro para dizer que sim. Vamos até lá conhece-la.

Novamente a Assistente disse que a criança não saberia a quem se destinaria a visita, disse ainda que a juíza não estava, mas havia deixado a autorização de visita assinada. Suspirei aliviada por não ter que encarar o Capitão Nascimento novamente.

Saímos do Fórum com a autorização nas mãos, querendo sorrir, mas morrendo de medo. É um enorme exercício de auto domínio, onde só um grande sonho é capaz de superar o medo e frustração. Eu não sabia se seria essa menina ou se seria uma nova decepção, mas tinha plena certeza que precisava tentar.

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2 comentários sobre “Um novo dia

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