O segundo contato

Passado esse primeiro encontro só perguntas me passavam pela cabeça. Será mesmo essa criança? Será que ela vai nos aceitar? Como será o processo legal daqui pra frente? Será que vamos poder passar o natal com ela? Não foi nada fácil trabalhar naquela sexta. Pior pro Agê que tinha um trabalho marcado em Salvador e passaria a sexta e o sábado fora. Nunca vou esquecer o que ele disse quando estava saindo pra viajar: tô com o coração partido, mas tenho que ir trabalhar, agora tenho uma filha pra criar!

Sábado acordei bem cedo para fazer tudo que precisava antes de ir para o abrigo. Atravessei a cidade sozinha sem me perder no caminho, o que para uma pessoa sem nenhuma inteligência espacial é praticamente um milagre. Cheguei para visita pouco antes do horário do almoço. Fui recebida alegremente pela psicóloga. Como estava próximo da época do natal vários grupos visitavam o abrigo para distribuir presentes, sempre levando a tira-colo um papai noel bem esfarrapado, do jeito que dava pra fazer.

Além do grupo que acompanhava o papai noel haviam ali mães que estavam provisoriamente sem a guarda do(s) filho(s), aguardando uma decisão da justiça, e também duas presidiárias que usaram a licença natal para visitar o(s) filho(s) no abrigo. Cerca de 5 cuidadores, mais a coordenadora e a psicóloga se desdobravam pra dar conta das 22 crianças que ali moravam e todas esses visitantes.

A Tamires estava dormindo, a cuidadora disse que ela havia dormido pouco e brincado muito pela manhã. Fui até seu quarto. Não tinha idéia de como ela conseguia dormir com tanto barulho. Pessoas saindo e entrando, várias crianças correndo e gritando. Entrei no quarto sozinha, bem silenciosa e encostei a porta.

Era um quarto bem grande com cerca de 10 berços dispostos de maneira que mal dava pra caminhar entre eles. No lado oposto havia um móvel largo que ocupava toda a extensão da parede. Deveria ser uma cômoda, mas praticamente já não haviam tampas nas diversas gavetas. Do outro lado um velho garda-roupas muito grande completava a decoração. Fiquei um tempo ali olhando tudo, olhando para aquela criança e pensando como ela se sentia viviendo ali. A Tamires não era uma menina linda. Praticamente não tinha cabelo, e o pouco que havia ficava preso em pequenas pituquinhas espalhadas por seu couro cabeludo. Também tinha a pela bastante manchada em tons amarelados. Mantinha sempre um olhar fechado, sério e mal falava. Eu pensava em como nossas vidas estavam pra mudar. Em menos de 5 minutos ela começou a se mexer no berço e acordou. Seus grandes olhos de jabuticaba rapidamente me identificaram e, com expressão fechada de sempre, ela estendeu os bracinhos para que a pegasse no colo.

Sai do quarto com ela e a cuidadora disse que ela precisava de um banho, que eu poderia esperar na sala. Eu perguntei se eu mesma poderia dar banho nela. A cuidadora foi muito gentil, pegou as roupas e as fraldas e fomos para o banheiro. Era um banheiro grande com um tipo de pia comprida onde eles colocam as banheiras e dão banho as crianças menores. Ao lado haviam três portas com chuveiros para que as crianças maiores tomem banho. Me atrapalhei toda com a dinâmica e com o chuveiro que teimava em desligar a cada minuto deixando a água gelada. A Tamires também não aliviou, viu todo meu esforço e se divertia em sentar quando precisava ficar em pé e ficar em pé quando precisava sentar. Se debatia e jogava água para fora da banheira, foi a primeira vez que eu a vi sorrir. Mas na verdade acho que ela estava rindo da minha cara.

Descemos para ficar na sala com as outras crianças e ver um papai noel japonês e magro promover brincadeiras e prêmios. Sentei no chão, interagi como pude. As outras crianças não me deram a menor bola, afinal o papai noel estava ali com o saco cheio de brinquedos. Em certo momento ele distribuiu tapa-olhos para que as crianças usassem durante uma contação de historia. A Tamires então se remexeu toda pra descer do meu colo. Meu primeiro impulso foi segurá-la, insegura. Mas ela ameaçou chorar e acabei cedendo. Ela foi direto na ajudante do papel noel e pediu colo. Um calor me subiu pelo rosto e então eu vi que no colo da mulher ela alcançou um tapa-olho e assim que o pegou se remexeu pra descer com pressa e veio correndo sorrindo pro meu colo. Eu a apertei tanto que ela soltou um grunhido e assim passamos a tarde, grudadas.

Ela ganhou um presente e logo o largou no meio da sala. Pegou o chocolate da mão de outro menino e eu a fiz devolver, sobre um forte protesto e ameaça de choro. Ela ainda correu pelo pátio úmido e antes que eu gritasse “vai cair” se espatifou no chão. Chorou, perdeu o ar e veio correndo pro meu colo. Eu ainda dei almoço, lanche da tarde e fiquei até todos irem para suas casas.

Quando fui me despedir a psicóloga perguntou se eu não queria trazer a Tamires pra passar a noite em casa, já que o dia havia sido muito tranquilo. Eu gelei! Fui tomada por uma mistura enorme de medo e desejo. Pensava na cara do Age quando chegasse a noite e desse de cara com ela, mas pensavam também que era apenas nosso primeiro encontro e que eu precisava ir com calma. Alem disso, estava sem cadeirinha no carro e teria que atravessar a marginal Tietê, não queria começar fazendo errado. Disse então que voltaria com meu marido no dia seguinte e levaríamos ela para passear.

Dessa vez foi mais difícil me despedir e fui embora com um nó na garganta ao ver aqueles grandes olhos tristes me dizerem tchau. Mas, mal podia esperar para contar tudo pro Agê. Rumo ao nosso primeiro domingo em família!

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3 comentários sobre “O segundo contato

  1. Naaaaooo!!! Nao e justo! Como vc some some esses dias todos e de repente aparece e conta que além de passar o dia com ela, vc podia levar ela pra casa?????? WOW! Pleaseeeee nao demora a postar tanto assim… 🙂
    Como voce conseguiu se controlar? Eu parava na primeira loja e comprava uma cadeirinha, agarrava ela e saia correndo! ( sou MUITO anciosa… Hahahaha) oque o Age falou qnd vc chgou? Conta conta conta!!!

  2. Ô, Cris, é sacanagem vc já me fazer começar a semana chorando. Pô! E depois de tanto tempo sem postar, eu quase chorei só de ver que tinha post novo. Rsrsrs…
    Agora, concordo com o que a Rafaela falou, eu tb tinha parado na primeira loja e comprado uma cadeirinha! Aff, que eu vou ser uma mãe muito ansiosa!! Rsrs… Apesar de quê, acho que o que vc fez foi melhor. Atropelar muito as coisas nesse momento, poderia acabar sendo pior depois. Sei lá, né? Até pra recuperar do susto de uma proposta assim e poder se preparar melhor para o dia seguinte. A verdade é que não existe essa de melhor ou pior e sim de seguir o seu coração e nesse caso, o que vc fez foi perfeito. 😉
    Beijos e vê se não demora tanto pra postar!!

  3. Oi Cris e Agê, encontrei o blog de vcs hoje e li todinho e nem preciso dizer que to chorando do início ao fim!!Tenho uma princesa que vai fazer 2 aninhos dia 3/06 (segunda) e não quero outro biológico, agora quero um do coração, e me coloquei no lgar de vcs o tempo inteiro… Nossa, a carga emoconal é altíssima, acho que já teria pirado!! rs

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