O Espírito de Natal

A segunda amanheceu, finalmente. Noite super mal dormida. O tempo todo em sobressalto, cada vez que ela se mexia na cama. Pois ela acordou ótima. Na verdade eu tive que acordá-la, porque ela emendou num delicioso sono e já eram 8hs da manhã. Nós precisávamos decidir o que fazer.

Eu liguei pro trabalho e disse que não poderia ir por motivos pessoais. Mas tive que dizer uma mentirinha, disse que não me sentia bem. Se falasse o que era de verdade não teria sossego. Pois então, estávamos decididos a não precisar levar a Tamires de volta pro abrigo. Nós deveríamos devolvê-la até as 17hs daquele dia. Então as 11hs em ponto eu liguei para o fórum para conversar com a assistente social. Ela não estava e o tempo ia passando e a agonia crescendo.

Perto das 13hs ela telefonou para saber se estava tudo bem. Então eu disse que estava tão bem que eu não queríamos que ela voltasse pro abrigo, que por favor, ela permitisse que a Tamires ficasse e disparei a falar que ela estava bem, que tinha se alimentado e que eu não conseguia pensar na possibilidade de me separar dela novamente e bla bla bla. Acho que fui convincente porque ela disse: preciso que os três venham no fórum hoje, é possível? Finalizei a ligação sorrindo dizendo que estaríamos lá no horário marcado.

Eis que São Paulo decide começar a chover e a fazer frio e a Tamires tinha uma roupa apenas. Um vestido de alcinha e uma sandália, que pra nosso azar arrebentou logo pela manhã. Então pegamos ela no colo e corremos para uma loja perto de casa para comprar um roupa e um calçado. A primeira roupa que compramos pra ela. Arrumei ela toda fofa e fomos para o fórum.

Lá chegando ela não queria descer do colo de forma alguma. Estranhou tudo, ficou calada o tempo todo. Conversamos com a assistente e basicamente sobre como ela havia passado o dia anterior e sobre nosso sentimento de não querer ficar longe dela. A mulher então perguntou: Tamires, você quer ficar com a mamãe e o papai ou quer voltar pra sua outra casa? Ela foi muito rápida e disse séria: ficar aqui.

A mulher sorriu e pediu que esperássemos que falaria com a Juíza. Uma meia hora depois voltou e perguntou: qual será o nome definitivo dela? Arregalamos os olhos um pro outro, não havíamos conversado sobre isso ainda. Mas de bate pronto eu disse: Tamires Bartis Barros. Então Age me puxou pelo braço e disse: querida, gostaria que tivesse Garcia também. Eu sorri e então ele disse para mulher: Tamires Garcia de Bartis Barros e ela tomou nota e saiu da sala.

Mais 30 minutos, e uma Tamires quase impossível de controlar, a mulher voltou com dois documentos. Um com a solicitação formal de adoção com nossos dados e o novo nome da Tamires. Esse nós assinamos e devolvemos para ela que carimbou e levou pro cartório do fórum. O outro era o termo de Guarda por Tempo Indeterminado. Ela nos orientou que esse documento nos permitiria ficar com nossa filha até sair a nova certidão de nascimento com nossos nomes. Eu deveria apresentar esse documento na empresa e no INSS para tirar licença maternidade remunerada e também no plano de saúde para que nossa filha fosse incluída.

Ouvimos tudo muito atentos e saímos do fórum de mãos dadas com nossa filha. Agora em definitivo!

Nosso caso foi bem especial. Não conhecemos outras pessoas que conseguiram ficar com a criança em definitivo com tanta rapidez. Sem precisar ir e voltar várias vezes ao abrigo. Acho que o espírito de natal realmente faz milagres, pra nossa sorte!

A visita que veio para ficar

O Age chegou no sábado bem tarde. Contei pra ele tudo que havia acontecido e num misto de alegria e inveja ele ouvia tudo atento e com um largo sorriso no rosto. Comemoramos e fomos dormir ansiosos para revê-la.

O domingo chegou!

A primeira coisa que fizemos foi passar em uma loja pra comprar a cadeirinha do carro. Claro que a vendedora entendeu pouco do que estava acontecendo. Não sabíamos peso nem altura da criança. Mas explicamos rapidamente e ela, comovida, ajudou como pôde.

Chegamos no abrigo e novamente a casa estava cheia de gente. Pensamos em permanecer um pouco para ela ficar tranquila antes de sairmos sozinhos, os três. Porem, quando me identifiquei para a cuidadora que nos recepcionou ela disse: “a tá, a Tamires disse que a mãe dela viria buscá-la hoje”. Gelei dos pés a cabeça, Age ficou lívido!

Dai ela surge toda arrumadinha com uma bolsinha no ombro puxando pela mão outra cuidadora. Quando nos viu largou a mão da mulher e correu na minha direção. Com a mesma agilidade pegou a minha mão e começou a se dirigir para o portão dizendo bem séria: vamos, vamos!

Pois bem, atendemos seu pedido. Age a pegou no colo e fomos para o carro. Aqueles olhos atentos registrava com atenção tudo e assim partimos e muito rápido o abrigo ficou pra trás dando lugar a uma lista de tarefas por fazer.

As cuidadoras, muito queridas, colocaram na bolsinha duas fraldas, uma muda de roupa, uma chupeta e uma escova de dentes. Mas claro, queríamos, logo de cara, compara algumas coisas para ela. Pais de primeira viagem, passamos em algumas lojas compramos: chupeta, fralda, leite, mamadeira. Por mais que tivesse um check list mental do que era realmente importante, fiquei como uma barata tonta na escolha do que deveria ser prioridade. Toda hora vinha a minha mente: vá com calma, você não sabe se isso é por um dia ou por toda uma vida. Demoramos horas andando de uma lado para o outro. Acabamos comprando uma pequena boneca de pano, simples e bonitinha que chamamos de Maria e dissemos pra ela que aquela era sua nova amiga e que iria morar conosco a partir daquele dia, assim como ela.

Almoçamos no shopping e foi uma luta faze-la comer umas poucas colheradas de comida. Tudo era novidade e ela estava bastante agitada. Enfim, exaustos, fomos para casa.

Age, muito emocionado, abriu a porta e disse: querida, aqui é a nossa casa. Ela entrou muito decidida e foi explorando cada cômodo. Quando entrou no quarto que foi preparado para recebê-la, com uma cama improvisada no chão, olhou demoradamente para tudo e depois olhou para mim e pediu colo.

O dia foi passando e parecia que ela se sentia cada vez mais à vontade e nós cada vez mais agitados. A noite chegou e esperamos ela reclamar sobre a casa, o quarto, a comida e querer voltar pro abrigo e pros braços das cuidadoras, que eram quem ela conhecia. Isso não aconteceu. Ela viu tv, brincou com a Maria, tomou banho em uma bacia improvisada, jantou, tomou mamadeira e chegou a hora de dormir.

Seguimos a orientação da psicóloga: respeitem a independência que ela já tem, não a façam regredir. Ela já dormia sozinha e assim fizemos. Colocamos ela na cama, demos beijo, desejamos boa noite, desligamos a luz e saímos. Ficamos ali, perto da porta, esperando ela chorar e chamar. Ela não fez isso. Ela dormiu.

Fomos para sala e falamos como duas maritacas por horas, revivendo passo a passo daquele dia surreal.

Em determinado momento fui ao quarto ver se ela estava bem. Abri a porta e ela estava dormindo. Respiração tranquila, muito bem aninhada naquela caminha improvisada. Com feição plácida e o que eu quis pensar ser o esboço de um sorriso. Naquele exato momento, pela primera vez, com todo o meu coração, eu tive a plena certeza que aquela era a casa dela e que ela nunca mais sairia das nossas vidas. Aquela era minha filha e então fui dormir mãe.