Cadê o dinheiro que tava aqui?

Seu inofensivo e fofinho filho devorou.

A chegada de um filho sempre significa um rombo na conta bancária. Mas no caso da adoção é tipo uma bomba atômica. É tudo de uma vez só. Sem chance do chá de bebê que os camaradas ajudam, sem chance de comprar tudo em Miami no início da gravidez ou mesmo no Brasil, ao longo de nove meses. Não, é tudo ali na hora.

A Tamires, graças aos nossos maravilhosos amigos, ganhou muita coisa, mas ainda sim é preciso comprar de tudo. Lembra quando você vai morar sozinho pela primeira vez e só então se dá conta que a casa nova não vem com coisas básicas como lâmpadas, chuveiro e filtro de água? É bem assim com o filho.  Pijama, toalha, calcinhas e meias, roupa de cama, travesseiro, chinelo e mais um monte de coisas surgem como item de primeira necessidade de um dia pro outro e de pouquinho em pouquinho você gasta um monte.

Sugiro, claro, fazer uma boa reserva de grana e também uma lista de compras. Eu fiz uma. Mas todo dia chegava em casa e tinha ainda alguma coisa faltando. Acho que foi assim durante todo o primeiro mês.

Fora isso sugiro um cuidado especial, cuidado com o “novo mundo infantil”. Um novo universo vai abrir na sua frente. Alargadores de retrovisor central para ver o bebê dentro do carro, limpadores de língua, termômetro de comida, cadeirinhas suspensas de prender na mesa de jantar, chupetas fashion e mais uma quantidade inimaginável de “gadgets” infantis vão, não só te levar a falência, como fazê-lo se questionar como seus pais te criaram sem tudo isso.

Claro, compre o que quiser, o que te fizer se sentir bem e mais seguro pra cuidar do seu filho. Mas lembre-se que ele não tinha nada disso. Muito pelo contrário, faltavam coisas muito básicas para ele e ainda sim ele sobreviveu. Tá ali firme e forte recomeçando a vida ao seu lado. Então cuidado pra não assustá-lo com um grande volume de informação. Até você mesmo é novo pra ele, imagina essa tralha toda.

Lembro de duas coisas em especial que a Tamires se apegou logo que chegou. Mesmo com vários brinquedos legais que ganhou, a Maria, sua simples boneca de pano de dez reais, comprada logo no primeiro dia em que chegou, continua até hoje sendo sua preferida. Fora isso, ela ama escova de dente temática.

O mais doce das crianças é o quão simples elas são de agradar.

Tento manter essa regra até hoje. Ela não tem coisas demais, assim como eu e o pai. Roupas, sapatos e tudo mais na medida certa para usar. No dia das crianças ao invés de ganhar brinquedo ensinei ela a separar os que não brincava mais para dar para uma criança que não tinha nenhum. Ela adorou a brincadeira e escolheu os brinquedos para se desfazer sem muitos problemas. É todo um esforço pra criar uma pessoa o menos consumista possível num mundo que é puro consumo.

E tudo que ela tem eu cuido com muito carinho para preservar e poder passar para minha pequena sobrinha que nasceu a pouco. Minha família tem essa tradição, as roupas são passadas de geração em geração. Eu mesma tenho um vestido que usei quando tinha seis meses de idade. Minha mãe guardou e me deu de presente quando me casei para usar na minha filha. Mas a Tata já chegou sem caber nele. O lindo vestidinho amarelo continua guardado com todo amor, esperando a filha da Tamires =)

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Então é natal

O natal chegou. Pensamos mil vezes que deveríamos ficar em casa, que tudo ainda era muito recente pra Tamires. 15 dias apenas e já iríamos apresentá-la para um monte de gente? Mas não dá. Você descobre muito rápido que filhos são como troféus, você quer mais é mostrar pra todo mundo, gritar que é seu, mostrar como é lindo. Lá fomos nós pra Assis interior de São Paulo, cidade natal do meu marido.

Como a casa dos pais dele estava em reforma, ficamos em um hotel. Foi intenso, muito intenso, intenso além da conta. Tanto que eu custei a escrever esse post. Mas não foi por culpa de ninguém, muito pelo contrário, fomos super bem recebidos. Mas é certo que não estávamos preparados para a avalanche que se seguiria.

Todas as pessoas querem ver, pegar, conversar. Contamos a mesma história várias e várias vezes. A Tamires ficou tímida, retraída e muito agitada. Nós, ainda tão inexperientes queríamos cumprir a risca todos os horários delas, nos policiávamos e corríamos o tempo todo. Foi exaustivo e não só isso, essa foi a primeira vez que “ficamos expostos a sociedade”. Recebemos olhares de todos os tipos na rua, nos restaurantes e lojas.

Com isso veio muitas perguntas indesejáveis como o porteiro do hotel que fez questão de perguntar, na frente da Tata, se ela era “de criação”. Eu estava sozinha com ela e fiquei muito chocada com a pergunta. Sem reação só respondi: “ela é minha filha” e sai logo dali apressada com ela no colo. Ou a caixa da C&A que perguntou ao meu marido se ela era adotada. Eu ficava pasmada com a falta de delicadeza das pessoas. O que elas tinham a ver com nossas vidas pra perguntar isso.

Não foi só isso, veio também as primeiras recusas. Pessoas que simplesmente não entendiam nossa opção e insistiam em perguntar se um de nós não podíamos ter filhos. Teve ainda pessoas que sabiam da adoção mas se surpreenderam com o fato da Tamires ser negra e não conseguiram esconder uma ponta de decepção. Ainda precisei ouvir: mas porque não pegaram uma mais clarinha, assim não precisavam contar…..

É amigo, nem tudo são flores. Como eu disse, foi uma avalanche. Amor, curiosidade, estranheza e rejeição. Tudo misturado. Alguns sentimentos em menor escala e outros em maior, mas tudo ali, acontecendo ao mesmo tempo.

De tudo que aconteceu o que mais me incomodou e irritou foi a pergunta fatal para qualquer adotante: Qual é a história dela? Porque ela estava no abrigo? Numa boa, quando você vê alguém grávida ou com o bebe no colo costuma perguntar como foi a noite de sexo em que ele foi concebido? Pergunta detalhes do casal? Não, correto? E sabe porque? Porque é muito íntimo e delicado. Só diz respeito a eles. A mesma coisa é a adoção. Pense que se a criança foi adotada é porque ela foi abandonada e isso já é triste o suficiente. É terrível lembrar a um pai ou mãe que seu filho já sofreu. É deselegante e invasivo. A família fica toda exposta quando essa maldita pergunta é feita. Portanto, NUNCA questione os pais sobre isso. Se eles quiserem, eles vão te contar, mas JAMAIS faça essa pergunta.

De qualquer forma, o mais importante dessa viagem foi a Tamires conhecer seus avós. Jamais vou esquecer a incrível conexão que ela criou com meu sogro logo de cara. Ela simplesmente ficou encantada com aquele senhor alto, de voz grave e lindos olhos azuis. Foi seduzida pelo som do seu chinelo arrastado e pelo seu riso zombeteiro. Pulou no seu colo e não queria mais sair de lá. Chamou ele de vovô com uma naturalidade absurda. E o encantamento aconteceu do outro lado também. Ele virou o avô babão e seguia ela para todo lado. Fazendo exemplarmente o papel de vô, ou seja, deixando ela fazer o que bem quisesse. Minha sogra, sempre muito delicada e gentil também ficou encantada pela neta. Ensinou musicas, danças, deu comida, ficou paparicando.

Todos ficaram um pouco tensos sobre como meu cunhado de 38 anos que tem síndrome de down reagiria. O Ricardo é muito apegado ao irmão e também tem muito carinho por mim mas será que teria ciúmes? Que nada, ele sorriu e abraçou a Tamires com a alegria e emoção que só ele sabe ter. Foi lindo! O mesmo com minhas cunhadas e suas filhas.

Esse abraço familiar ajudou a aguentar e superar toda a confusão. No saldo geral foi um natal lindo. Nosso primeiro natal com a família completa.