Então é natal

O natal chegou. Pensamos mil vezes que deveríamos ficar em casa, que tudo ainda era muito recente pra Tamires. 15 dias apenas e já iríamos apresentá-la para um monte de gente? Mas não dá. Você descobre muito rápido que filhos são como troféus, você quer mais é mostrar pra todo mundo, gritar que é seu, mostrar como é lindo. Lá fomos nós pra Assis interior de São Paulo, cidade natal do meu marido.

Como a casa dos pais dele estava em reforma, ficamos em um hotel. Foi intenso, muito intenso, intenso além da conta. Tanto que eu custei a escrever esse post. Mas não foi por culpa de ninguém, muito pelo contrário, fomos super bem recebidos. Mas é certo que não estávamos preparados para a avalanche que se seguiria.

Todas as pessoas querem ver, pegar, conversar. Contamos a mesma história várias e várias vezes. A Tamires ficou tímida, retraída e muito agitada. Nós, ainda tão inexperientes queríamos cumprir a risca todos os horários delas, nos policiávamos e corríamos o tempo todo. Foi exaustivo e não só isso, essa foi a primeira vez que “ficamos expostos a sociedade”. Recebemos olhares de todos os tipos na rua, nos restaurantes e lojas.

Com isso veio muitas perguntas indesejáveis como o porteiro do hotel que fez questão de perguntar, na frente da Tata, se ela era “de criação”. Eu estava sozinha com ela e fiquei muito chocada com a pergunta. Sem reação só respondi: “ela é minha filha” e sai logo dali apressada com ela no colo. Ou a caixa da C&A que perguntou ao meu marido se ela era adotada. Eu ficava pasmada com a falta de delicadeza das pessoas. O que elas tinham a ver com nossas vidas pra perguntar isso.

Não foi só isso, veio também as primeiras recusas. Pessoas que simplesmente não entendiam nossa opção e insistiam em perguntar se um de nós não podíamos ter filhos. Teve ainda pessoas que sabiam da adoção mas se surpreenderam com o fato da Tamires ser negra e não conseguiram esconder uma ponta de decepção. Ainda precisei ouvir: mas porque não pegaram uma mais clarinha, assim não precisavam contar…..

É amigo, nem tudo são flores. Como eu disse, foi uma avalanche. Amor, curiosidade, estranheza e rejeição. Tudo misturado. Alguns sentimentos em menor escala e outros em maior, mas tudo ali, acontecendo ao mesmo tempo.

De tudo que aconteceu o que mais me incomodou e irritou foi a pergunta fatal para qualquer adotante: Qual é a história dela? Porque ela estava no abrigo? Numa boa, quando você vê alguém grávida ou com o bebe no colo costuma perguntar como foi a noite de sexo em que ele foi concebido? Pergunta detalhes do casal? Não, correto? E sabe porque? Porque é muito íntimo e delicado. Só diz respeito a eles. A mesma coisa é a adoção. Pense que se a criança foi adotada é porque ela foi abandonada e isso já é triste o suficiente. É terrível lembrar a um pai ou mãe que seu filho já sofreu. É deselegante e invasivo. A família fica toda exposta quando essa maldita pergunta é feita. Portanto, NUNCA questione os pais sobre isso. Se eles quiserem, eles vão te contar, mas JAMAIS faça essa pergunta.

De qualquer forma, o mais importante dessa viagem foi a Tamires conhecer seus avós. Jamais vou esquecer a incrível conexão que ela criou com meu sogro logo de cara. Ela simplesmente ficou encantada com aquele senhor alto, de voz grave e lindos olhos azuis. Foi seduzida pelo som do seu chinelo arrastado e pelo seu riso zombeteiro. Pulou no seu colo e não queria mais sair de lá. Chamou ele de vovô com uma naturalidade absurda. E o encantamento aconteceu do outro lado também. Ele virou o avô babão e seguia ela para todo lado. Fazendo exemplarmente o papel de vô, ou seja, deixando ela fazer o que bem quisesse. Minha sogra, sempre muito delicada e gentil também ficou encantada pela neta. Ensinou musicas, danças, deu comida, ficou paparicando.

Todos ficaram um pouco tensos sobre como meu cunhado de 38 anos que tem síndrome de down reagiria. O Ricardo é muito apegado ao irmão e também tem muito carinho por mim mas será que teria ciúmes? Que nada, ele sorriu e abraçou a Tamires com a alegria e emoção que só ele sabe ter. Foi lindo! O mesmo com minhas cunhadas e suas filhas.

Esse abraço familiar ajudou a aguentar e superar toda a confusão. No saldo geral foi um natal lindo. Nosso primeiro natal com a família completa.

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2 comentários sobre “Então é natal

  1. Oi Cris!
    Tão bom receber email do post novo!
    Queria dizer que estou tão feliz pelas fotos da Tamires e vê nelas a alegria em seu rostinho, ate numa que tem no instagram do seu marido que ela está séria.
    Feliz demais por acompanhar essa história tão linda que me faz chorar sempre… de alegria!! rs ❤
    Beijos

  2. Cris, sou um admirador confesso do seu blog. Muito bom senso. Passei por situações semelhantes, mas como sou um tanto enfezado vejo mais olhares do que escuto perguntas indóceis. Concordo com você, em tempos de superexposição parece que perdeu-se o sentido de privacidade

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