Primeiro teste pro coração de mãe

Como citei no post anterior, a Tamires tinha uma hérnia umbilical bem aparente. Parecia uma bexiga murcha pendurada na sua barriga e de alguma forma ela sabia que aquilo não era lá muito normal. Sempre olhava pro meu umbigo e pro dela e fazia ar de questionamento.

A cirurgia estava marcada em um hospital público e eu já tinha todo o encaminhamento em mãos. O primeiro impulso é sempre olhar no médico particular, mas a Tamires ainda estava sendo incluída no nosso plano de saúde. Resolvemos então ir até o hospital ouvir a palestra da médica responsável pelo atendimento.

Foi tudo muito organizado, vários pais em uma sala onde recebiam toda as instruções. Tudo muito seguro e dito por uma equipe que passava muita confiança. Decidimos deixar como estava. Mas, em uma das primeiras vezes na minha vida, pedi arrego. Liguei pra minha mãe e pedi pra ela vir ficar comigo. Estava muito aflita em uma situação totalmente nova pra mim. E ela, claro, feliz em poder participar ativamente, veio me ajudar.

No dia marcado fomos cedo pro hospital e, após uma espera chata, fomos chamados. O Age não pôde entrar comigo. Ficamos só eu e Tata no pré-atendimento. Ela tranquila vendo um desenho na TV, eu balançando a perna. Mas mantive as aparências e ficava apenas abraçada com ela cantando musiquinhas no seu ouvindo e dizendo o quanto a amava.

Dai a chamaram. Eu mesma troquei sua roupa, coloquei a toquinha e a deitei na maca. Me deixaram até colocar o arzinho com anestesia no narizinho dela. Em três longas piscadas ela já estava dormindo e ai nos separamos. Eu segurei a mãozinha dela até fechar a porta e quando isso aconteceu eu chorei muito. Fiquei ali muito angustiada pensando como ela era totalmente essencial pra mim. Tive a exata dimensão do amor que sentia por ela, da vontade de protegê-la de qualquer dor, de qualquer sofrimento. Foram os 15 minutos mais longos da minha vida.

Enfim ela voltou e eu a tirei do soninho da anestesia a base de muitos beijos. Ela acordou tranquila e passou a tarde em observação numa boa. Recebemos alta no final da tarde e lá estava o Age. Passou o dia dentro do carro, não conseguiu arrastar pé.

Fomos os três pra casa e a mamãe deu aquela força. No dia seguinte eu e Age colocamos curativos igual ao dela na barriga. Contamos uma historia que ali iria nascer um novo umbigo bem lindo e que no dia certo nós três iríamos tirar o curativo. Ela não deu trabalho algum, foi tudo muito suave. Nos três dias seguintes eu dava banho nela com paninho com água morna.

Chegou o grande dia de tirar o curativo. Contei toda uma história que ela ia ganhar um umbigo novo e bla bla bla. Tava toda animada, bem mais que ela. Sai pra fazer umas compras no mercado e quando cheguei, adivinhem? Minha mãe tinha dado banho nela e tirado o curativo.

Ai que raiva! Só não a coloquei pra fora de casa porque ela mora em outra cidade hahahahaha. Sei que fez na melhor das intenções, mas pô, a filha é minha, meu momento. Eu tava toda preparada. Tinha feito um baita enredo e pá, minha mãe vai lá e faz tudo na minha ausência?! Controlei minha frustração e nem disse nada. Engoli o sapo. Meu primeiro sapo como mãe e com isso descobri um outro sentimento, uma coisa que nunca havia sentido na vida e que descobri numa fúria imensa: ciúme.

p.s – encaminhei o documento de guarda definitiva junto com a certidão de nascimento para o plano de saúde e em 5 dias a carteirinha da Tata já estava conosco =)

O Casamento

Se tem uma coisa que muda horrores com a chegada do filho é o casamento. Juro que pensei que era meio lenda, que as pessoas exageravam. Mas ó, o bicho pega mesmo.

Entendo assim, o casamento é composto por duas pessoas que se entrosam e criam uma dinâmica de vida. No caso meu e do Age, a engrenagem tava lá rodando que era uma beleza. Muito afeto, companheirismo, sexo. A chegada de um filho pode ser comparada a uma peça nova nessa engrenagem. Tudo sai do eixo. As peças sofrem um sério desgaste para se encaixarem a nova dinâmica.

Quando menos você se dá conta estão acontecendo discussões que não existiam, intolerância, falta de atenção um com o outro porque está tudo voltado pro filho e sexo então, da até pra esquecer um pouco como se faz. Fica aquela lembrança dourada lá longe. Dai que eu não entendo mesmo as pessoas que dizem que tem filho pra segurar o casamento. Tá maluco.

É preciso uma atenção redobrada para que, aquilo que você mais desejou na vida, não destrua você. Não dá pra desesperar e jogar tudo pro alto. Afinal agora você tem filho e aquele que você sonhou a noite inteira que estava enforcando, é o pai dele.

Felizmente o furacão passa. É preciso colocar óleo nessa engrenagem para as peças voltarem a se encaixar. Nesse caso o único óleo recomendado se chama amor. Muito!

Ô lá em casa

Agora era hora de visitar minha família. Depois da experiência intensa com a família do Age resolvemos esperar um pouco até ir para Belo Horizonte apresentar a filhota para os meus. Minha mãe não gostou nada da história, mas acabou respeitando minha decisão.

Ao contrário da família do meu marido, que é elegante-discreta, a minha é um turbilhão. Falam alto, falam demais, falam o que pensam. Eu pedi minha mãe pra segurar a onda pra não assustar a pequena. Adivinha o que ela fez? Já veio atender o portão aos pranto, gesticulando e gritando boas vindas e quando viu a Tamires a arrancou dos meus braços olhando, cheirando, abraçando e beijando a menina. Sabe o que a Tamires fez? Riu.

Como minha mãe é foda! O carinho dela com a Tata foi tão verdadeiro, tão intenso, tão feliz que não tinha como não chorar vendo ela ali agachada sorrindo-chorando, apertando minha filha com aquele sentimento de: até quem fim minha filha me deu uma neta! Depois do escândalo inicial veio o resto da família. Todos sorrindo e felizes com a pequena. Minha avó apertava ela no peito com força e por um momento pensei que poderia matá-la sufocada, mas em seguida me lembrei que fui criada no meio daqueles peitos enormes e nada nunca me aconteceu.

Foi muito engraçado com meu padrasto. Disse pra Tata: esse é seu avô. Dai ele retrucou, como sempre faz com todos os netos, porque não quer parecer velho: não sou vovô não, sou titio. Pois ela, com um sorriso sacana na cara, disse: vovô. E os dois brincam assim até hoje. Inclusive, ela já pegou o jeito da coisa e quando quer algo dele o chama de titio. No mais, é sempre vovô! Com a boca bem cheia.

A surpresa ficou por conta da amizade entre ela e minha cunhada. Meu irmão é um dado, mas minha cunhada é bem tímida e fechada. A Tamires gostou muito dela e as duas são uma graça juntas.

Agora estávamos um pouquinho mais seguros e preparados “para sociedade”. A visita foi muito legal e a Tamires se divertiu muito. A casa grande e o primo da mesma idade parecia ser um presente dos deuses. Os dois ficaram grudados todos os dias e ficaram bem amiguinhos.

O resultado de uma dose cavalar de amor aparece em bem poucos dias, a Tamires já estava falando bem mais. Aumentando o vocabulário e melhorando a dicção. O amor pode ser mágico!

O Rompimento

Haviam quase um mês que a Tamires estava conosco e resolvi que ela tinha o direito de voltar ao abrigo pra se despedir dos amigos e para que eu devolvesse a bolsa e as roupas que ela veio pra nossa casa no primeiro dia. Além disso precisava pegar a pasta dela com histórico médico e algumas outras coisas.

Age não quis entrar, ficou no carro esperando com a Tamires. Fui direto falar com a coordenadora que me atendeu muito feliz. A Tamires tinha uma hérnia umbilical bem grande, parecia uma bexiga pequena e murcha pendurada em sua barriga. A cirurgia estava marcada em um hospital público para dali 15 dias. Ouvi com atenção todas as instruções, peguei todos os papeis que haviam sobre ela na instituição e, para minha surpresa, algumas fotos impressas e em um CD.

Fiquei muito contente de ter fotos dela bem pequenininha. Mas sentia uma angústia terrível quando no CD vi as fotos do que parecia ser seu aniversário de um ano rodeada por pessoas que não tenho a mais vaga idéia de quem sejam. Mesmo assim peguei tudo, deixei pra trás apenas uma correntinha que a assistente disse que chegou com ela. Preferi não ter isso em casa.

Fui até o carro e a peguei no colo. Disse pra ela: querida, venha se despedir dos seus amigos porque você não vai mais morar aqui. Ela parece ter acreditado no que eu disse e entrou muito serena no abrigo segurando firme a minha mão.

Bel, sua melhor amiga estava dormindo, mas ela a acordou e disse: tchau Bel. Uma abraço, um sorriso e virou as costas. Beijou todos seus cuidadores com um sorriso no rosto. Tudo ia muito bem até o Cláudio entrar pelo portão voltando da escola. Cláudio era um menino negro, magro e alto com longos cílios e lindos olhos redondos. Acho que jamais esquecerei sua aparência.

Ele entrou pela sala e ao ver a Tamires largou sua mochila no chão, correu ao encontro dela e a abraçou começando a chorar. Chorava copiosamente. Um choro alto, angustiado. Repetia sem parar: a Tamires vai embora, eu nunca mais vou ver ela, gosto muito dela e vou sentir muita saudade. Não sei dizer o que passou pela minha cabeça, já que nesse momento meu coração se quebrou em mil pedaços.

Um cuidador, vendo a cena, veio me acudir. Me disse que o Cláudio era muito apegado a ela. Que a tratava como irmã e já foi tentando acalmá-lo. Ele disse: você não está feliz que a Tamires agora tem uma família? Com um choro enorme o menino dizia que sim, mas queria ir junto. Nesse momento a Tamires começou a chorar alto, tentando se soltar dele e correr pro meu colo. Parece que de uma hora pra outra a confiança dela foi embora e ela temia que eu saísse dali sem ela.

O cuidador então convenceu o menino a soltá-la e ela pode enfim vir pro meu colo. Agarrou-se ao meu pescoço e olhava pro Cláudio com uma mistura de tristeza e felicidade que é complexo demais pra uma criança de dois anos.

Com ela no colo eu me agachei e abracei o menino. Sabia que não poderia prometer nada que não pudesse cumprir e não tinha a mínima condição de dar a ele o que ele precisava. Então só o abracei em silêncio e quando ele se acalmou eu disse que, apesar da saudade, ele poderia pensar nela com muito carinho e que eu a amava desde já e iria cuidar muito bem dela. Ele balançou a cabeça positivamente um tanto conformado.

Sai dali com uma das maiores dores que já senti até hoje. Pensei que o pior já havia passado, mas sem dúvida, esse foi o acontecimento mais doloroso de toda essa jornada. Não me arrependo de ter voltado, porque minha filha tinha o direito de se despedir, mas se soubesse, teria ido na ausência do Cláudio. Seu rosto me perseguiu durante muito tempo e por vezes me imaginava pensando nele com carinho, acreditando que ele possa ter tido o mesmo destino feliz que a Tamires e nós.

Uma nova rotina

Passada as festas estamos novamente em casa. Agora somos só nós três. Nessa época o escritório do Age era dentro de casa, no nosso antigos quarto de visitas. Pensa, os três num apê de 100 metros. Foi muito louco esse início. A Tamires acordava bem cedo e dava pra perceber que ela estava estranhando toda aquela tranquilidade. Acostumada a viver com tanta gente, tanto barulho e na briga por atenção e agora ali, dois adultos 24hs babando nela.

Não posso dizer que foi fácil. Tentei impor uma rotina onde eu arrumava a casa, fazia almoço, brincava com ela, tinha o soninho bla bla bla. Na verdade não sobrava tempo pra nada fiquei bem atrapalhada e parece que passava o dia na cozinha sempre limpados as coisas entre uma refeição e outra. E ela andava atras de mim o dia todo, calada, mas grudada na minha barra. Eu pisava nela ao menos umas três vezes por dia. Ela parecia uma sombra.

O Age também tava tentando se entender naquele espaço reduzido. Ele estava tão acostumado a estar sempre sozinho – o oposto da Tamires – e agora duas mulheres barulhentas invadiram o espaço dele. Já eu, eu achei que ia surtar. Era tanta emoção, tanta coisa nova pra lidar e tanta ansiedade que pelamor…. No final do dia iam os três se arrastando pra cama. Como se tivessem passado o tempo todo trabalhando em uma construção.

Na verdade era, estávamos construindo uma família e isso despende uma mega energia!