O Rompimento

Haviam quase um mês que a Tamires estava conosco e resolvi que ela tinha o direito de voltar ao abrigo pra se despedir dos amigos e para que eu devolvesse a bolsa e as roupas que ela veio pra nossa casa no primeiro dia. Além disso precisava pegar a pasta dela com histórico médico e algumas outras coisas.

Age não quis entrar, ficou no carro esperando com a Tamires. Fui direto falar com a coordenadora que me atendeu muito feliz. A Tamires tinha uma hérnia umbilical bem grande, parecia uma bexiga pequena e murcha pendurada em sua barriga. A cirurgia estava marcada em um hospital público para dali 15 dias. Ouvi com atenção todas as instruções, peguei todos os papeis que haviam sobre ela na instituição e, para minha surpresa, algumas fotos impressas e em um CD.

Fiquei muito contente de ter fotos dela bem pequenininha. Mas sentia uma angústia terrível quando no CD vi as fotos do que parecia ser seu aniversário de um ano rodeada por pessoas que não tenho a mais vaga idéia de quem sejam. Mesmo assim peguei tudo, deixei pra trás apenas uma correntinha que a assistente disse que chegou com ela. Preferi não ter isso em casa.

Fui até o carro e a peguei no colo. Disse pra ela: querida, venha se despedir dos seus amigos porque você não vai mais morar aqui. Ela parece ter acreditado no que eu disse e entrou muito serena no abrigo segurando firme a minha mão.

Bel, sua melhor amiga estava dormindo, mas ela a acordou e disse: tchau Bel. Uma abraço, um sorriso e virou as costas. Beijou todos seus cuidadores com um sorriso no rosto. Tudo ia muito bem até o Cláudio entrar pelo portão voltando da escola. Cláudio era um menino negro, magro e alto com longos cílios e lindos olhos redondos. Acho que jamais esquecerei sua aparência.

Ele entrou pela sala e ao ver a Tamires largou sua mochila no chão, correu ao encontro dela e a abraçou começando a chorar. Chorava copiosamente. Um choro alto, angustiado. Repetia sem parar: a Tamires vai embora, eu nunca mais vou ver ela, gosto muito dela e vou sentir muita saudade. Não sei dizer o que passou pela minha cabeça, já que nesse momento meu coração se quebrou em mil pedaços.

Um cuidador, vendo a cena, veio me acudir. Me disse que o Cláudio era muito apegado a ela. Que a tratava como irmã e já foi tentando acalmá-lo. Ele disse: você não está feliz que a Tamires agora tem uma família? Com um choro enorme o menino dizia que sim, mas queria ir junto. Nesse momento a Tamires começou a chorar alto, tentando se soltar dele e correr pro meu colo. Parece que de uma hora pra outra a confiança dela foi embora e ela temia que eu saísse dali sem ela.

O cuidador então convenceu o menino a soltá-la e ela pode enfim vir pro meu colo. Agarrou-se ao meu pescoço e olhava pro Cláudio com uma mistura de tristeza e felicidade que é complexo demais pra uma criança de dois anos.

Com ela no colo eu me agachei e abracei o menino. Sabia que não poderia prometer nada que não pudesse cumprir e não tinha a mínima condição de dar a ele o que ele precisava. Então só o abracei em silêncio e quando ele se acalmou eu disse que, apesar da saudade, ele poderia pensar nela com muito carinho e que eu a amava desde já e iria cuidar muito bem dela. Ele balançou a cabeça positivamente um tanto conformado.

Sai dali com uma das maiores dores que já senti até hoje. Pensei que o pior já havia passado, mas sem dúvida, esse foi o acontecimento mais doloroso de toda essa jornada. Não me arrependo de ter voltado, porque minha filha tinha o direito de se despedir, mas se soubesse, teria ido na ausência do Cláudio. Seu rosto me perseguiu durante muito tempo e por vezes me imaginava pensando nele com carinho, acreditando que ele possa ter tido o mesmo destino feliz que a Tamires e nós.

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