O Rompimento

Haviam quase um mês que a Tamires estava conosco e resolvi que ela tinha o direito de voltar ao abrigo pra se despedir dos amigos e para que eu devolvesse a bolsa e as roupas que ela veio pra nossa casa no primeiro dia. Além disso precisava pegar a pasta dela com histórico médico e algumas outras coisas.

Age não quis entrar, ficou no carro esperando com a Tamires. Fui direto falar com a coordenadora que me atendeu muito feliz. A Tamires tinha uma hérnia umbilical bem grande, parecia uma bexiga pequena e murcha pendurada em sua barriga. A cirurgia estava marcada em um hospital público para dali 15 dias. Ouvi com atenção todas as instruções, peguei todos os papeis que haviam sobre ela na instituição e, para minha surpresa, algumas fotos impressas e em um CD.

Fiquei muito contente de ter fotos dela bem pequenininha. Mas sentia uma angústia terrível quando no CD vi as fotos do que parecia ser seu aniversário de um ano rodeada por pessoas que não tenho a mais vaga idéia de quem sejam. Mesmo assim peguei tudo, deixei pra trás apenas uma correntinha que a assistente disse que chegou com ela. Preferi não ter isso em casa.

Fui até o carro e a peguei no colo. Disse pra ela: querida, venha se despedir dos seus amigos porque você não vai mais morar aqui. Ela parece ter acreditado no que eu disse e entrou muito serena no abrigo segurando firme a minha mão.

Bel, sua melhor amiga estava dormindo, mas ela a acordou e disse: tchau Bel. Uma abraço, um sorriso e virou as costas. Beijou todos seus cuidadores com um sorriso no rosto. Tudo ia muito bem até o Cláudio entrar pelo portão voltando da escola. Cláudio era um menino negro, magro e alto com longos cílios e lindos olhos redondos. Acho que jamais esquecerei sua aparência.

Ele entrou pela sala e ao ver a Tamires largou sua mochila no chão, correu ao encontro dela e a abraçou começando a chorar. Chorava copiosamente. Um choro alto, angustiado. Repetia sem parar: a Tamires vai embora, eu nunca mais vou ver ela, gosto muito dela e vou sentir muita saudade. Não sei dizer o que passou pela minha cabeça, já que nesse momento meu coração se quebrou em mil pedaços.

Um cuidador, vendo a cena, veio me acudir. Me disse que o Cláudio era muito apegado a ela. Que a tratava como irmã e já foi tentando acalmá-lo. Ele disse: você não está feliz que a Tamires agora tem uma família? Com um choro enorme o menino dizia que sim, mas queria ir junto. Nesse momento a Tamires começou a chorar alto, tentando se soltar dele e correr pro meu colo. Parece que de uma hora pra outra a confiança dela foi embora e ela temia que eu saísse dali sem ela.

O cuidador então convenceu o menino a soltá-la e ela pode enfim vir pro meu colo. Agarrou-se ao meu pescoço e olhava pro Cláudio com uma mistura de tristeza e felicidade que é complexo demais pra uma criança de dois anos.

Com ela no colo eu me agachei e abracei o menino. Sabia que não poderia prometer nada que não pudesse cumprir e não tinha a mínima condição de dar a ele o que ele precisava. Então só o abracei em silêncio e quando ele se acalmou eu disse que, apesar da saudade, ele poderia pensar nela com muito carinho e que eu a amava desde já e iria cuidar muito bem dela. Ele balançou a cabeça positivamente um tanto conformado.

Sai dali com uma das maiores dores que já senti até hoje. Pensei que o pior já havia passado, mas sem dúvida, esse foi o acontecimento mais doloroso de toda essa jornada. Não me arrependo de ter voltado, porque minha filha tinha o direito de se despedir, mas se soubesse, teria ido na ausência do Cláudio. Seu rosto me perseguiu durante muito tempo e por vezes me imaginava pensando nele com carinho, acreditando que ele possa ter tido o mesmo destino feliz que a Tamires e nós.

Uma nova rotina

Passada as festas estamos novamente em casa. Agora somos só nós três. Nessa época o escritório do Age era dentro de casa, no nosso antigos quarto de visitas. Pensa, os três num apê de 100 metros. Foi muito louco esse início. A Tamires acordava bem cedo e dava pra perceber que ela estava estranhando toda aquela tranquilidade. Acostumada a viver com tanta gente, tanto barulho e na briga por atenção e agora ali, dois adultos 24hs babando nela.

Não posso dizer que foi fácil. Tentei impor uma rotina onde eu arrumava a casa, fazia almoço, brincava com ela, tinha o soninho bla bla bla. Na verdade não sobrava tempo pra nada fiquei bem atrapalhada e parece que passava o dia na cozinha sempre limpados as coisas entre uma refeição e outra. E ela andava atras de mim o dia todo, calada, mas grudada na minha barra. Eu pisava nela ao menos umas três vezes por dia. Ela parecia uma sombra.

O Age também tava tentando se entender naquele espaço reduzido. Ele estava tão acostumado a estar sempre sozinho – o oposto da Tamires – e agora duas mulheres barulhentas invadiram o espaço dele. Já eu, eu achei que ia surtar. Era tanta emoção, tanta coisa nova pra lidar e tanta ansiedade que pelamor…. No final do dia iam os três se arrastando pra cama. Como se tivessem passado o tempo todo trabalhando em uma construção.

Na verdade era, estávamos construindo uma família e isso despende uma mega energia!

Cadê o dinheiro que tava aqui?

Seu inofensivo e fofinho filho devorou.

A chegada de um filho sempre significa um rombo na conta bancária. Mas no caso da adoção é tipo uma bomba atômica. É tudo de uma vez só. Sem chance do chá de bebê que os camaradas ajudam, sem chance de comprar tudo em Miami no início da gravidez ou mesmo no Brasil, ao longo de nove meses. Não, é tudo ali na hora.

A Tamires, graças aos nossos maravilhosos amigos, ganhou muita coisa, mas ainda sim é preciso comprar de tudo. Lembra quando você vai morar sozinho pela primeira vez e só então se dá conta que a casa nova não vem com coisas básicas como lâmpadas, chuveiro e filtro de água? É bem assim com o filho.  Pijama, toalha, calcinhas e meias, roupa de cama, travesseiro, chinelo e mais um monte de coisas surgem como item de primeira necessidade de um dia pro outro e de pouquinho em pouquinho você gasta um monte.

Sugiro, claro, fazer uma boa reserva de grana e também uma lista de compras. Eu fiz uma. Mas todo dia chegava em casa e tinha ainda alguma coisa faltando. Acho que foi assim durante todo o primeiro mês.

Fora isso sugiro um cuidado especial, cuidado com o “novo mundo infantil”. Um novo universo vai abrir na sua frente. Alargadores de retrovisor central para ver o bebê dentro do carro, limpadores de língua, termômetro de comida, cadeirinhas suspensas de prender na mesa de jantar, chupetas fashion e mais uma quantidade inimaginável de “gadgets” infantis vão, não só te levar a falência, como fazê-lo se questionar como seus pais te criaram sem tudo isso.

Claro, compre o que quiser, o que te fizer se sentir bem e mais seguro pra cuidar do seu filho. Mas lembre-se que ele não tinha nada disso. Muito pelo contrário, faltavam coisas muito básicas para ele e ainda sim ele sobreviveu. Tá ali firme e forte recomeçando a vida ao seu lado. Então cuidado pra não assustá-lo com um grande volume de informação. Até você mesmo é novo pra ele, imagina essa tralha toda.

Lembro de duas coisas em especial que a Tamires se apegou logo que chegou. Mesmo com vários brinquedos legais que ganhou, a Maria, sua simples boneca de pano de dez reais, comprada logo no primeiro dia em que chegou, continua até hoje sendo sua preferida. Fora isso, ela ama escova de dente temática.

O mais doce das crianças é o quão simples elas são de agradar.

Tento manter essa regra até hoje. Ela não tem coisas demais, assim como eu e o pai. Roupas, sapatos e tudo mais na medida certa para usar. No dia das crianças ao invés de ganhar brinquedo ensinei ela a separar os que não brincava mais para dar para uma criança que não tinha nenhum. Ela adorou a brincadeira e escolheu os brinquedos para se desfazer sem muitos problemas. É todo um esforço pra criar uma pessoa o menos consumista possível num mundo que é puro consumo.

E tudo que ela tem eu cuido com muito carinho para preservar e poder passar para minha pequena sobrinha que nasceu a pouco. Minha família tem essa tradição, as roupas são passadas de geração em geração. Eu mesma tenho um vestido que usei quando tinha seis meses de idade. Minha mãe guardou e me deu de presente quando me casei para usar na minha filha. Mas a Tata já chegou sem caber nele. O lindo vestidinho amarelo continua guardado com todo amor, esperando a filha da Tamires =)

Então é natal

O natal chegou. Pensamos mil vezes que deveríamos ficar em casa, que tudo ainda era muito recente pra Tamires. 15 dias apenas e já iríamos apresentá-la para um monte de gente? Mas não dá. Você descobre muito rápido que filhos são como troféus, você quer mais é mostrar pra todo mundo, gritar que é seu, mostrar como é lindo. Lá fomos nós pra Assis interior de São Paulo, cidade natal do meu marido.

Como a casa dos pais dele estava em reforma, ficamos em um hotel. Foi intenso, muito intenso, intenso além da conta. Tanto que eu custei a escrever esse post. Mas não foi por culpa de ninguém, muito pelo contrário, fomos super bem recebidos. Mas é certo que não estávamos preparados para a avalanche que se seguiria.

Todas as pessoas querem ver, pegar, conversar. Contamos a mesma história várias e várias vezes. A Tamires ficou tímida, retraída e muito agitada. Nós, ainda tão inexperientes queríamos cumprir a risca todos os horários delas, nos policiávamos e corríamos o tempo todo. Foi exaustivo e não só isso, essa foi a primeira vez que “ficamos expostos a sociedade”. Recebemos olhares de todos os tipos na rua, nos restaurantes e lojas.

Com isso veio muitas perguntas indesejáveis como o porteiro do hotel que fez questão de perguntar, na frente da Tata, se ela era “de criação”. Eu estava sozinha com ela e fiquei muito chocada com a pergunta. Sem reação só respondi: “ela é minha filha” e sai logo dali apressada com ela no colo. Ou a caixa da C&A que perguntou ao meu marido se ela era adotada. Eu ficava pasmada com a falta de delicadeza das pessoas. O que elas tinham a ver com nossas vidas pra perguntar isso.

Não foi só isso, veio também as primeiras recusas. Pessoas que simplesmente não entendiam nossa opção e insistiam em perguntar se um de nós não podíamos ter filhos. Teve ainda pessoas que sabiam da adoção mas se surpreenderam com o fato da Tamires ser negra e não conseguiram esconder uma ponta de decepção. Ainda precisei ouvir: mas porque não pegaram uma mais clarinha, assim não precisavam contar…..

É amigo, nem tudo são flores. Como eu disse, foi uma avalanche. Amor, curiosidade, estranheza e rejeição. Tudo misturado. Alguns sentimentos em menor escala e outros em maior, mas tudo ali, acontecendo ao mesmo tempo.

De tudo que aconteceu o que mais me incomodou e irritou foi a pergunta fatal para qualquer adotante: Qual é a história dela? Porque ela estava no abrigo? Numa boa, quando você vê alguém grávida ou com o bebe no colo costuma perguntar como foi a noite de sexo em que ele foi concebido? Pergunta detalhes do casal? Não, correto? E sabe porque? Porque é muito íntimo e delicado. Só diz respeito a eles. A mesma coisa é a adoção. Pense que se a criança foi adotada é porque ela foi abandonada e isso já é triste o suficiente. É terrível lembrar a um pai ou mãe que seu filho já sofreu. É deselegante e invasivo. A família fica toda exposta quando essa maldita pergunta é feita. Portanto, NUNCA questione os pais sobre isso. Se eles quiserem, eles vão te contar, mas JAMAIS faça essa pergunta.

De qualquer forma, o mais importante dessa viagem foi a Tamires conhecer seus avós. Jamais vou esquecer a incrível conexão que ela criou com meu sogro logo de cara. Ela simplesmente ficou encantada com aquele senhor alto, de voz grave e lindos olhos azuis. Foi seduzida pelo som do seu chinelo arrastado e pelo seu riso zombeteiro. Pulou no seu colo e não queria mais sair de lá. Chamou ele de vovô com uma naturalidade absurda. E o encantamento aconteceu do outro lado também. Ele virou o avô babão e seguia ela para todo lado. Fazendo exemplarmente o papel de vô, ou seja, deixando ela fazer o que bem quisesse. Minha sogra, sempre muito delicada e gentil também ficou encantada pela neta. Ensinou musicas, danças, deu comida, ficou paparicando.

Todos ficaram um pouco tensos sobre como meu cunhado de 38 anos que tem síndrome de down reagiria. O Ricardo é muito apegado ao irmão e também tem muito carinho por mim mas será que teria ciúmes? Que nada, ele sorriu e abraçou a Tamires com a alegria e emoção que só ele sabe ter. Foi lindo! O mesmo com minhas cunhadas e suas filhas.

Esse abraço familiar ajudou a aguentar e superar toda a confusão. No saldo geral foi um natal lindo. Nosso primeiro natal com a família completa.

Stop! A Licença Maternidade

Em abril de 2002 entrou em vigor a lei 10.421 que garante licença maternidade remunerada para mães adotantes. De acordo com essa lei o período da licença é de acordo com a idade da criança adotada. Mas desde junho de 2012 a Previdência Social vem cumprindo uma decisão judicial que a obriga a pagar o benefício durante 120 dias independente da idade do adotado.

Eu nem imagino como poderia ser diferente. Pensa na sua vida virando de pernas para o ar. Pois é, é isso que acontece. Não dá pra manter a carreira como foco no momento que cai uma criança de paraquedas em casa. Acredito ser uma injustiça o que fazem com a família ao não permitirem que os homens também tenham um tempo para construir o ninho com a chegada de uma criança. A responsabilidade da mulher é grande demais sozinha. Sou uma felizarda porque o Age é autônomo e pode estar junto para essa difícil tarefa que tínhamos pela frente. Não sei como pais adotantes sozinhos ou casais homoafetivos fazem. Espero que essa situação mude algum dia.

Mas eu entendo claramente algumas diferenças entre as mães biológicas e adotantes nesse processo de licença maternidade. A mãe de barriga fica nove meses com o filho ali, crescendo. Todas que conheço dizem que é lindo, mágico, mas no final vc já está pedindo pelo amor de Deus pra nascer. A mulher fica pesada, sem posição e fisicamente debilitada pelo cansaço. Além disso, ela sabe com uma certa precisão quando é que a criança vai chegar e por isso consegue se organizar. Com a mãe de coração não tem nada disso. Um dia vc está aos berros em uma reunião com a equipe, super empolgada com um projeto que está no meio. No dia seguinte chega seu filho e tudo isso precisa ser bruscamente interrompido. Vc não está pesada, em outro ritmo, vc está no seu estado físico e mental normal. No meu caso, ligado no duzentos e vinte.

Eu trabalho desde os 15 anos. Nunca fiquei sem trabalhar. Estudei, me dediquei e trabalho na área que escolhi estar. Gosto muito do que faço. Sou dedicada, passional, sofro com os projeto, vibro quando dá certo. Alguns dizem que sou workaholic, mas eu acho que não chega a tanto.

Durante todo o processo de adoção eu sabia e fui preparando minha cabeça pra esse momento que teria que dar uma pausa em tudo pra cuidar da família. Mas eu não posso dizer que foi fácil.

Dei muita sorte da Tamires chegar bem próxima ao natal, uma época em que as agências de publicidade, que é meu ramo, estão mais tranquilas nos projetos. Mas eu ficaria fora 4 meses e pra esse ramo isso é uma eternidade. Clientes mudam, colegas mudam, chefes mudam e as vezes até o rumo dos negócios mudam em um prazo como esse. Eu estava assustada de ficar tanto tempo fora e com medo de não conseguir ficar sem trabalhar, de sentir falta, de sofrer.

Por outro lado, não via a hora de me dedicar plenamente a Tamires. Conhecê-la melhor e permitir que ela me conhecesse. Aprender a exercer o papel de mãe. Eu não tinha dúvidas que a Taimires era o projeto mais importante da minha vida.

Estava dividida e confusa. Nesse momento conversar com outras mães foi bem legal. Principalmente as que trabalham no mesmo ramo. Reconhecer que era o momento de construir meu ninho. Organizar uma nova rotina, entender como é ser plenamente responsável por outro ser.

Entreguei o documento dado pelo fórum como Guarda por Tempo Indeterminado juntamente com a certidão de nascimento original da Tamires na empresa. Foram feitos os tramites e fui encaminhada os INSS para dar entrada na papelada. Não tive nenhum problema, ninguém questionou nada. Posso dizer que fui até bem atendida.

Agora estava iniciando o período de convivência intensiva. Nós e ela. Muitas dúvidas, muitos anseios, muitos planos. Eu cheguei a fazer uma agenda de rotina de como poderia gerenciar meu tempo, o dela e a casa toda. Morro de rir de ver isso ainda cadastrado no celular.

Hoje, passado quase um ano da chegada da Tamires eu posso dizer abertamente que ela tomou o lugar central da minha vida. Todo meu foco é nela. Não me sinto culpada em precisar pedir alteração em horários de reunião, em precisar sair mais cedo ou chegar mais tarde as vezes e principalmente não me sinto menos profissional ou menos apaixonada por em, alguns momentos, estar no trabalho e desejar estar em casa com ela.

As vezes eu chego e ela já está dormindo. A primeira vez que isso aconteceu eu chorei baixinho no chuveiro me sentindo a pior mãe do mundo. Já tive que trabalhar final de semana, viajar. Fazer tudo que uma mulher que trabalha faz. Mas hoje não me sinto mais culpada por isso também. E desenvolvi uma relação da Tamires com isso. Ela sabe o nome do lugar onde eu trabalho, já levei ela até lá algumas vezes. Eu conto pra ela como foi meu dia. As vezes digo que tive uma reunião muito difícil, as vezes digo que um projeto foi aprovado e que fiquei feliz. Eu sempre digo pra ela que estou indo trabalhar e que isso é uma coisa boa porque a mamãe gosta do que faz, mas que a mamãe volta todo dia por que ama ela.

Outro dia cheguei em casa e ela estava sentada com todas as bonecas em volta e batucando em uma bandeijinha de plástico como se digitasse em um computador. Perguntei o que ela estava fazendo e ela disse: estamos trabalhando mamãe. Agora vou fazer uma reunião. Levantou e foi pra trás da porta. Ela disse que é onde fica a mesa dela. Morri de orgulho.

Comoção Geral

Voltamos para casa, agora com a certeza que a Tamires era nossa filha. Passamos em uma loja e compramos mais umas coisas. Principalmente brinquedos. Não tinha NADA na nossa casa para ela brincar.

Chegamos em casa e ela quis ficar no quarto brincando. Mas não ficava sozinha, tinha que estar sempre eu ou Agê lá com ela senão ela começava a chamar TIAAAAAA. Ela chamava tanto eu quanto o Agê de tia. A assistente nos disse que tia é a única palavra que ela conhece pra determinar quem cuida dela. Ela não sabia o que significava mãe ou pai. Então deveríamos ter paciência porque ela nos chamar de “tia” já era uma demonstração de carinho. Mas toda vez que ela nos chamava nós carinhosamente dizíamos: não, eu não sou sua tia. Sou sua mamãe (ou papai).

Contando assim pode parecer tudo muito surreal. Mas eu juro que tudo vai acontecendo naturalmente. Ela aprendendo a ser filha e nós aprendendo a sermos pais.

Depois que ela brincou um pouco a levei para tomar banho, numa banheirinha inflável que compramos. A primeira providência foi pegar uma tesoura, dessas de unha, e cortar os elásticos que  prediam com força o pouco cabelo que ela tinha. Foi uma luta tirar porque estavam realmente muito apertados. Enfim, com o cabelinho solto! Ela deu um sorriso fofo quando passou sua pequena mão pela cabeça e sentiu seus cabelos livres.

Tava bem preocupada porque ela estava comendo bem pouco, ao contrário do que havia visto no abrigo. Então decidi roubar no jogo. Fiz uma sopinha com macarrão de letrinhas e foi um sucesso. Prato limpo! Novamente às 20h30 levamos ela pro quarto. Demos beijos e abraços e ela se deitou tranquila e segura para mais uma noite de sono.

Decidimos então que era o momento de informar a família. Primeiro ligamos para minha mãe. Fiquei escolhendo as palavras até ela atender, mas na hora só disse: mãe, tá sentada? Ela já berrou do outro lado: o que aconteceu? Então eu disse: sua neta chegou! É uma menina, se chama Tamires e tem 2 anos e 3 meses. Um rápido silencio do outro lado foi interrompido por um grito muito alto: AI MEU DEEEEUS. Foi só o que consegui escutar. O resto foi só choro. Do lado de lá e do lado de cá. Aos prantos minha mãe dizia que estava tão feliz! Foram uns 15 minutos de lidas palavras de benção em meio a um choro compulsivo. Me emociono muito ao lembrar o quanto ela foi incrível, verdadeira, companheira. Na sequência já queria pegar as malas e vir pra SP. Então foi o momento de dizer que precisaríamos ter calma. A assistente nos orientou a introduzir devagar as pessoas na vida da Tamires. Se ela não sabia o que era mãe e pai, imagina vó, vô, tios, primos. Iríamos o mais breve possível para Belo Horizonte, mas precisávamos de uns dias. A muito contragosto minha mãe concordou. Claro que a seguir começou o rosário de perguntas de avó para mãe de primeira viagem: já deu banho? ela tá comendo? não teve febre com essas mudanças todas? como é a mãozinha dela? e o cabelinho? Já comprou um casaquinho? criança nessa idade não pode pegar friagem. Filha, não fica brava com a mãe, mas você tá dando conta? Hahahaha delícia, tava doida pra ouvir esse tipo de disparate que só minha amorosa mãe tem o direito de fazer.

Na sequência Agê ligou para mãe dele e, adivinha? Praticamente tudo a mesma coisa. Gritos, alegria, muita ansiedade, perguntas. A pequena diferença é que minha sogra é mais controlada que minha mãe (ou finge melhor) e aceitou esperar um tempinho para conhecer a neta.

Em poucos minutos o telefone tocou várias vezes, nossas mães contaram pra metade da família e o pessoal ligava para dar os parabéns. Ficamos muito felizes e nos sentimos acolhidos, acreditamos que a Tamires também!

No dia seguinte fui trabalhar. Meu chefe veio logo me perguntar se estava tudo bem já que não havia ido no dia anterior. Eu dei um sorriso tão revelador que ele disse: é menino ou menina? Fiquei segurando as lágrimas e disse que era menina. Ele disse: vamos organizar logo sua saída. Contei somente para ele e para meu amigos mais queridos do trabalho. Estava pensando na melhor maneira de falar pra galera.

Para minha sorte no início da tarde a luz acabou e, sem previsão de volta, fomos dispensados. Então eu vim pra casa e fizemos, eu e Agê, um post no facebook pra contar a novidade pros amigos conectados. Foi uma avalanche: pessoal comentando com um carinho enorme. Pessoas que não conhecíamos mandando os parabéns, amigas e amigos ligando aos prantos. Foi uma tarde de muito choro e emoção. Sabíamos que as pessoas iriam reagir de alguma forma, mas nada parecido com o que aconteceu. Foi realmente incrível.

No dia seguinte foi impossível trabalhar. Todo mundo vinha com perguntas, abraços, presentes e mais presentes. O carro ficou abarrotado de roupas e brinquedos. Os queridos Fiuza, Godoy e Mariana ainda me mataram do coração dando de presente o jogo de quarto. Tudo lindo demais! Cheguei em casa e mais presentes chegavam por sedex e entregas diversas.

De um dia para o outro a Tamires passou a ter um quarto lindo, muitas e muitas roupas e brinquedos de todos os tipos. Mas o mais importante: ficou muito claro que seria uma criança muito amada não só por nós. Já chegou arrebatando todos os corações =)

O Espírito de Natal

A segunda amanheceu, finalmente. Noite super mal dormida. O tempo todo em sobressalto, cada vez que ela se mexia na cama. Pois ela acordou ótima. Na verdade eu tive que acordá-la, porque ela emendou num delicioso sono e já eram 8hs da manhã. Nós precisávamos decidir o que fazer.

Eu liguei pro trabalho e disse que não poderia ir por motivos pessoais. Mas tive que dizer uma mentirinha, disse que não me sentia bem. Se falasse o que era de verdade não teria sossego. Pois então, estávamos decididos a não precisar levar a Tamires de volta pro abrigo. Nós deveríamos devolvê-la até as 17hs daquele dia. Então as 11hs em ponto eu liguei para o fórum para conversar com a assistente social. Ela não estava e o tempo ia passando e a agonia crescendo.

Perto das 13hs ela telefonou para saber se estava tudo bem. Então eu disse que estava tão bem que eu não queríamos que ela voltasse pro abrigo, que por favor, ela permitisse que a Tamires ficasse e disparei a falar que ela estava bem, que tinha se alimentado e que eu não conseguia pensar na possibilidade de me separar dela novamente e bla bla bla. Acho que fui convincente porque ela disse: preciso que os três venham no fórum hoje, é possível? Finalizei a ligação sorrindo dizendo que estaríamos lá no horário marcado.

Eis que São Paulo decide começar a chover e a fazer frio e a Tamires tinha uma roupa apenas. Um vestido de alcinha e uma sandália, que pra nosso azar arrebentou logo pela manhã. Então pegamos ela no colo e corremos para uma loja perto de casa para comprar um roupa e um calçado. A primeira roupa que compramos pra ela. Arrumei ela toda fofa e fomos para o fórum.

Lá chegando ela não queria descer do colo de forma alguma. Estranhou tudo, ficou calada o tempo todo. Conversamos com a assistente e basicamente sobre como ela havia passado o dia anterior e sobre nosso sentimento de não querer ficar longe dela. A mulher então perguntou: Tamires, você quer ficar com a mamãe e o papai ou quer voltar pra sua outra casa? Ela foi muito rápida e disse séria: ficar aqui.

A mulher sorriu e pediu que esperássemos que falaria com a Juíza. Uma meia hora depois voltou e perguntou: qual será o nome definitivo dela? Arregalamos os olhos um pro outro, não havíamos conversado sobre isso ainda. Mas de bate pronto eu disse: Tamires Bartis Barros. Então Age me puxou pelo braço e disse: querida, gostaria que tivesse Garcia também. Eu sorri e então ele disse para mulher: Tamires Garcia de Bartis Barros e ela tomou nota e saiu da sala.

Mais 30 minutos, e uma Tamires quase impossível de controlar, a mulher voltou com dois documentos. Um com a solicitação formal de adoção com nossos dados e o novo nome da Tamires. Esse nós assinamos e devolvemos para ela que carimbou e levou pro cartório do fórum. O outro era o termo de Guarda por Tempo Indeterminado. Ela nos orientou que esse documento nos permitiria ficar com nossa filha até sair a nova certidão de nascimento com nossos nomes. Eu deveria apresentar esse documento na empresa e no INSS para tirar licença maternidade remunerada e também no plano de saúde para que nossa filha fosse incluída.

Ouvimos tudo muito atentos e saímos do fórum de mãos dadas com nossa filha. Agora em definitivo!

Nosso caso foi bem especial. Não conhecemos outras pessoas que conseguiram ficar com a criança em definitivo com tanta rapidez. Sem precisar ir e voltar várias vezes ao abrigo. Acho que o espírito de natal realmente faz milagres, pra nossa sorte!

A visita que veio para ficar

O Age chegou no sábado bem tarde. Contei pra ele tudo que havia acontecido e num misto de alegria e inveja ele ouvia tudo atento e com um largo sorriso no rosto. Comemoramos e fomos dormir ansiosos para revê-la.

O domingo chegou!

A primeira coisa que fizemos foi passar em uma loja pra comprar a cadeirinha do carro. Claro que a vendedora entendeu pouco do que estava acontecendo. Não sabíamos peso nem altura da criança. Mas explicamos rapidamente e ela, comovida, ajudou como pôde.

Chegamos no abrigo e novamente a casa estava cheia de gente. Pensamos em permanecer um pouco para ela ficar tranquila antes de sairmos sozinhos, os três. Porem, quando me identifiquei para a cuidadora que nos recepcionou ela disse: “a tá, a Tamires disse que a mãe dela viria buscá-la hoje”. Gelei dos pés a cabeça, Age ficou lívido!

Dai ela surge toda arrumadinha com uma bolsinha no ombro puxando pela mão outra cuidadora. Quando nos viu largou a mão da mulher e correu na minha direção. Com a mesma agilidade pegou a minha mão e começou a se dirigir para o portão dizendo bem séria: vamos, vamos!

Pois bem, atendemos seu pedido. Age a pegou no colo e fomos para o carro. Aqueles olhos atentos registrava com atenção tudo e assim partimos e muito rápido o abrigo ficou pra trás dando lugar a uma lista de tarefas por fazer.

As cuidadoras, muito queridas, colocaram na bolsinha duas fraldas, uma muda de roupa, uma chupeta e uma escova de dentes. Mas claro, queríamos, logo de cara, compara algumas coisas para ela. Pais de primeira viagem, passamos em algumas lojas compramos: chupeta, fralda, leite, mamadeira. Por mais que tivesse um check list mental do que era realmente importante, fiquei como uma barata tonta na escolha do que deveria ser prioridade. Toda hora vinha a minha mente: vá com calma, você não sabe se isso é por um dia ou por toda uma vida. Demoramos horas andando de uma lado para o outro. Acabamos comprando uma pequena boneca de pano, simples e bonitinha que chamamos de Maria e dissemos pra ela que aquela era sua nova amiga e que iria morar conosco a partir daquele dia, assim como ela.

Almoçamos no shopping e foi uma luta faze-la comer umas poucas colheradas de comida. Tudo era novidade e ela estava bastante agitada. Enfim, exaustos, fomos para casa.

Age, muito emocionado, abriu a porta e disse: querida, aqui é a nossa casa. Ela entrou muito decidida e foi explorando cada cômodo. Quando entrou no quarto que foi preparado para recebê-la, com uma cama improvisada no chão, olhou demoradamente para tudo e depois olhou para mim e pediu colo.

O dia foi passando e parecia que ela se sentia cada vez mais à vontade e nós cada vez mais agitados. A noite chegou e esperamos ela reclamar sobre a casa, o quarto, a comida e querer voltar pro abrigo e pros braços das cuidadoras, que eram quem ela conhecia. Isso não aconteceu. Ela viu tv, brincou com a Maria, tomou banho em uma bacia improvisada, jantou, tomou mamadeira e chegou a hora de dormir.

Seguimos a orientação da psicóloga: respeitem a independência que ela já tem, não a façam regredir. Ela já dormia sozinha e assim fizemos. Colocamos ela na cama, demos beijo, desejamos boa noite, desligamos a luz e saímos. Ficamos ali, perto da porta, esperando ela chorar e chamar. Ela não fez isso. Ela dormiu.

Fomos para sala e falamos como duas maritacas por horas, revivendo passo a passo daquele dia surreal.

Em determinado momento fui ao quarto ver se ela estava bem. Abri a porta e ela estava dormindo. Respiração tranquila, muito bem aninhada naquela caminha improvisada. Com feição plácida e o que eu quis pensar ser o esboço de um sorriso. Naquele exato momento, pela primera vez, com todo o meu coração, eu tive a plena certeza que aquela era a casa dela e que ela nunca mais sairia das nossas vidas. Aquela era minha filha e então fui dormir mãe.

O segundo contato

Passado esse primeiro encontro só perguntas me passavam pela cabeça. Será mesmo essa criança? Será que ela vai nos aceitar? Como será o processo legal daqui pra frente? Será que vamos poder passar o natal com ela? Não foi nada fácil trabalhar naquela sexta. Pior pro Agê que tinha um trabalho marcado em Salvador e passaria a sexta e o sábado fora. Nunca vou esquecer o que ele disse quando estava saindo pra viajar: tô com o coração partido, mas tenho que ir trabalhar, agora tenho uma filha pra criar!

Sábado acordei bem cedo para fazer tudo que precisava antes de ir para o abrigo. Atravessei a cidade sozinha sem me perder no caminho, o que para uma pessoa sem nenhuma inteligência espacial é praticamente um milagre. Cheguei para visita pouco antes do horário do almoço. Fui recebida alegremente pela psicóloga. Como estava próximo da época do natal vários grupos visitavam o abrigo para distribuir presentes, sempre levando a tira-colo um papai noel bem esfarrapado, do jeito que dava pra fazer.

Além do grupo que acompanhava o papai noel haviam ali mães que estavam provisoriamente sem a guarda do(s) filho(s), aguardando uma decisão da justiça, e também duas presidiárias que usaram a licença natal para visitar o(s) filho(s) no abrigo. Cerca de 5 cuidadores, mais a coordenadora e a psicóloga se desdobravam pra dar conta das 22 crianças que ali moravam e todas esses visitantes.

A Tamires estava dormindo, a cuidadora disse que ela havia dormido pouco e brincado muito pela manhã. Fui até seu quarto. Não tinha idéia de como ela conseguia dormir com tanto barulho. Pessoas saindo e entrando, várias crianças correndo e gritando. Entrei no quarto sozinha, bem silenciosa e encostei a porta.

Era um quarto bem grande com cerca de 10 berços dispostos de maneira que mal dava pra caminhar entre eles. No lado oposto havia um móvel largo que ocupava toda a extensão da parede. Deveria ser uma cômoda, mas praticamente já não haviam tampas nas diversas gavetas. Do outro lado um velho garda-roupas muito grande completava a decoração. Fiquei um tempo ali olhando tudo, olhando para aquela criança e pensando como ela se sentia viviendo ali. A Tamires não era uma menina linda. Praticamente não tinha cabelo, e o pouco que havia ficava preso em pequenas pituquinhas espalhadas por seu couro cabeludo. Também tinha a pela bastante manchada em tons amarelados. Mantinha sempre um olhar fechado, sério e mal falava. Eu pensava em como nossas vidas estavam pra mudar. Em menos de 5 minutos ela começou a se mexer no berço e acordou. Seus grandes olhos de jabuticaba rapidamente me identificaram e, com expressão fechada de sempre, ela estendeu os bracinhos para que a pegasse no colo.

Sai do quarto com ela e a cuidadora disse que ela precisava de um banho, que eu poderia esperar na sala. Eu perguntei se eu mesma poderia dar banho nela. A cuidadora foi muito gentil, pegou as roupas e as fraldas e fomos para o banheiro. Era um banheiro grande com um tipo de pia comprida onde eles colocam as banheiras e dão banho as crianças menores. Ao lado haviam três portas com chuveiros para que as crianças maiores tomem banho. Me atrapalhei toda com a dinâmica e com o chuveiro que teimava em desligar a cada minuto deixando a água gelada. A Tamires também não aliviou, viu todo meu esforço e se divertia em sentar quando precisava ficar em pé e ficar em pé quando precisava sentar. Se debatia e jogava água para fora da banheira, foi a primeira vez que eu a vi sorrir. Mas na verdade acho que ela estava rindo da minha cara.

Descemos para ficar na sala com as outras crianças e ver um papai noel japonês e magro promover brincadeiras e prêmios. Sentei no chão, interagi como pude. As outras crianças não me deram a menor bola, afinal o papai noel estava ali com o saco cheio de brinquedos. Em certo momento ele distribuiu tapa-olhos para que as crianças usassem durante uma contação de historia. A Tamires então se remexeu toda pra descer do meu colo. Meu primeiro impulso foi segurá-la, insegura. Mas ela ameaçou chorar e acabei cedendo. Ela foi direto na ajudante do papel noel e pediu colo. Um calor me subiu pelo rosto e então eu vi que no colo da mulher ela alcançou um tapa-olho e assim que o pegou se remexeu pra descer com pressa e veio correndo sorrindo pro meu colo. Eu a apertei tanto que ela soltou um grunhido e assim passamos a tarde, grudadas.

Ela ganhou um presente e logo o largou no meio da sala. Pegou o chocolate da mão de outro menino e eu a fiz devolver, sobre um forte protesto e ameaça de choro. Ela ainda correu pelo pátio úmido e antes que eu gritasse “vai cair” se espatifou no chão. Chorou, perdeu o ar e veio correndo pro meu colo. Eu ainda dei almoço, lanche da tarde e fiquei até todos irem para suas casas.

Quando fui me despedir a psicóloga perguntou se eu não queria trazer a Tamires pra passar a noite em casa, já que o dia havia sido muito tranquilo. Eu gelei! Fui tomada por uma mistura enorme de medo e desejo. Pensava na cara do Age quando chegasse a noite e desse de cara com ela, mas pensavam também que era apenas nosso primeiro encontro e que eu precisava ir com calma. Alem disso, estava sem cadeirinha no carro e teria que atravessar a marginal Tietê, não queria começar fazendo errado. Disse então que voltaria com meu marido no dia seguinte e levaríamos ela para passear.

Dessa vez foi mais difícil me despedir e fui embora com um nó na garganta ao ver aqueles grandes olhos tristes me dizerem tchau. Mas, mal podia esperar para contar tudo pro Agê. Rumo ao nosso primeiro domingo em família!

O grande momento

Por Cris e Agê, narrado por Agê.

Era um dia muito quente aquele 12 de dezembro. Estávamos bastante desgastados emocionalmente e cansados do trabalho. Pegamos o metrô e ainda precisamos de um táxi para chegar ao abrigo. Quando paramos em frente ao endereço informado pela assistente social me senti um pouco mais recarregado. A casa não era sombria como a outra. Era espaçosa, bem cuidada, cheia de vida. E quantas vidas.

A psicóloga que nos recebeu foi muito receptiva e profissional. Soube conduzir a situação desde o início. Ficou claro que o procedimento recomendado pelo fórum seria seguido à risca porque nenhuma criança tinha ideia de quem haviamos ido conhecer. Começamos bem, pensei.

Enquanto ela descrevia a Tamires meu coração batia mais pesado. Minha cabeça fazia o contraponto racional dizendo pra segurar a onda, visto nosso histórico recente. Dócil, tímida, de pouco sorriso, mas amável, carinhosa e danada quando se juntava com a amiguinha preferida, Bel. Eis o perfil da Tamires.

Chegamos à sala de TV. Habilidosamente, os cuidadores tinham formado um quadrado usando os sofás. Lá no meio as crianças menores brincavam no chão. Outras assistiam hipnotizadas a Galinha Pintadinha na TV. As maiores estavam deitadas e foram as primeiras a ficar mais agitadas com a nossa chegada. Queriam impressionar.

“É a de blusa vermelha e calça fusô estampada”, sussurrou a psicóloga. Se referia a Tamires. “Quem vocês vieram conhecer?”, tascou logo uma menininha de uns 6 anos. Antes que a gente gaguejasse uma resposta, a psicóloga interveio firmemente dizendo que estávamos ali para conhecer a casa e visitar todo mundo.

Entramos no quadrado e sentamos no sofá bem em frente à TV. Tamires estava de costas para nós, vidrada no desenho. Parecia nem ter notado nossa presença. De repente, mas muito de repente, ela olhou para trás bem direto nos meus olhos. Como quem sai de um transe, levantou rapidamente, correu na minha direção e estendeu os braços, pedindo colo. Engoli seco. Pisquei rápido naquela tentativa inútil de disfarçar uma lágrima. Ela se ajeitou no meu colo e voltou a olhar para a TV. Olhei para a Cris e foi bem difícil não chorar. Meu coração estava avisando que aquela era a nossa filha. Busquei e encontrei o mesmo sentimento no olhar da Cris.

Dei um beijo no seu rostinho. Ela não achou ruim, pelo contrário, apertou minha mão com sua mãozinha. A Cris tentou interagir, mas ela já havia voltado ao estado inexplicavelmente hipnótico que aquela Galinha Pintadinha provoca nas crianças. Tudo bem, senti a Cris sentindo.

Novamente, de repente, muito de repente, Tamires salta para o colo da Cris e imediatamente trata de segurar minha mão. O laço estava feito. Não éramos mais um e outro. Não era mais só ela. Os três eram um só. O sorriso que li no olhar da Cris foi um dos mais belos que ela já me deu – e ela é muito boa nisso. Olho para a psicóloga e ela me pareceu emocionada, ali, em pé, com uma das mãos cobrindo a boca. Meu olhar deixou claro pra ela que levaríamos adiante uma aproximação com Tamires.

Logo em seguida meu coração se aquietou. Fiquei numa tranquilidade como há muito não experimentava. A ansiedade era outra. A vontade era acelerar o tempo e as estapas. Mas rapidamente meu racional correu para socorrer a razão que começava a entrar em desvantagem para a emoção.

Meu transe foi interrompido pela Bel, que estava tentando escalar o colo da Cris, disputando espaço com Tamires. Foi a primeira vez que ouvimos sua voz: “aqui não, Bel!”. A Cris sorriu e disse que havia colo para ambas, sentando a amiguinha na outra perna. Tamires não deu like, mas deixou.

Incrivelmente, a atmosfera na sala mudou. As crianças maiores que até então se esforçavam para chamar a atenção começaram a interagir com a gente de uma forma muito dócil. Uns cantavam, outros dançavam. Um menino fez questão de mostrar que sabia contar até dez em inglês. Pareciam também sentir que nossa visita havia se transformado num encontro de família. Tamires ali, calada. Não quis cantar mesmo quando Bel a puxou pelo braço.

Ficamos cerca de duas horas e durante todo esse tempo a Tamires se revezou no colo de um e de outro. No menor sinal que iríamos colocá-la no chão ela nos olhava com seus grandes olhos tristonhos e balançava a cabeça em sinal negativo.

O tempo foi fechando e uma tempestade de verão se aproximava, então decidimos ir. Foi difícil convencer Tamires a descer do colo. A psicóloga, que ficou presente durante toda a visita, nos levou novamente ao escritório e perguntou se gostaríamos de voltar. Olhamos um para o outro e sorrimos dizendo que sim, queríamos conhecê-la melhor. Fomos informados que éramos o segundo casal a visitá-la, o primeiro não quis voltar. Dei graças a Deus. Marcamos de voltar no sábado. Saímos sem dar muitas explicações porque não queríamos vê-la chorar, mas dava para sentir no peito aqueles grandes olhos tristes nos seguindo por toda parte.

Ao sairmos não nos falamos num primeiro momento. A cabeça tava uma confusão enorme. Não sabia se corria pra não pegar chuva, se parava pra comprar uma água (a garganta tava seca), se voltava pra ficar com ela mais um pouquinho.

Preferimos caminhar até o metrô e chegamos debaixo dos primeiros pingos de chuva. Meu olhos insistiam em encher de lágrimas e eu lutava pra que elas não descessem. Cris a mesma coisa. Olhou para mim e a primeira coisa que disse foi: e agora, já pode gritar gol? Não deu mais pra segurar. Rimos chorando abraçados dentro do vagão lotado.

A sensação de felicidade se mistura com a do medo. Você quer mesmo é ligar pra todo mundo, gritar, mas e se não der certo e se não for aquela criança? Então resolvemos não contar para ninguém. Sabíamos que uma aproximação era necessária e então deixaríamos a coisa amadurecer um pouco mais. Mas nada segura o coração, que nesse momento tinha um motivo muito forte pra estar descompassado, agitado e tomado de esperança.

Não seria fácil vencer a sexta para estar novamente com ela no sábado, dia da próxima visita. Mas sabíamos que seria um encontro decisivo e estávamos ansiosos. Em nossos corações ela já era a nossa filha. Restava saber se no coração dela já éramos seus pais.